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Antes de analisar a natureza própria da fé devemos responder ainda a
uma pergunta prévia: É o entendimento o sujeito imediato em que ela
se enraíza?
Em nenhuma passagem das obras do Doutor Místico se encontrará uma
resposta na forma axiomática ou assertiva. Como se pode observar, a
pergunta tem, se lhe tiramos a inflexão interrogativa, sabor de
axioma escolástico. Porem, já que não é axioma literal, quiçá
possamos achar seu conteúdo, sob um aspecto metafórico, em Subida
II 16, onde a fé é comparada a uma vela que ilumina em um lugar
escuro. O Doutor Místico alude ali, ao explicar a analogia, ao
sujeito psicológico da fé:
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"[...] cujo lugar, que aqui significa o entendimento, que é o
candelabro onde se assenta a vela da fé".
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A comparação tem um sentido claro: como a vela no candelabro, assim
a fé ilumina no entendimento. Portanto, a fé se 'sujeita' ou se
enraíza no entendimento.
Contudo, o argumento não é suficiente. Para esclarecer então de
maneira mais cabal a relação 'fé - entendimento' será preciso
analisar a noção, comum ou ainda genérica, que o Doutor Místico
tem da fé.
Já o ouvimos dizer que é 'o meio de união do entendimento com
Deus'. E não nos basta. Queremos algo mais, algo que se pareça
com uma definição. Diríamos que o Doutor Místico no-la dá um
pouco mais adiante, prosseguindo a explicação do 'que fazer'
unitivo, que é a função específica da fé. Ao mesmo tempo,
estabelece uma hierarquia ou ordem das potências sobre as quais se
sustenta a tríade das virtudes teologais. As três são propostas
como instrumentos ou meios de união, e isto entranha uma relação às
potências em que radicam. Trata-se, como se vê, das três
potências superiores ou espirituais[31], porque somente a parte
superior ou espiritual da alma é capaz de comunicação com Deus, e,
portanto, de união verdadeira: "A parte que tem relação com Deus
e com o espiritual, que é a racional e superior" ( Subida II
4,2).
O esquema de correspondências se ajusta assim:
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Fé - Entendimento
Esperança - Memória
Caridade - Vontade
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Em cada virtude teologal deve atuar a união com Deus na potência
correspondente. A arquitetura de Subida, como se nota, baseia-se e
depende deste esquema tripartido.
Lemos, com efeito, na epígrafe de Subida II 6:
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"Como as três virtudes teologais hão de aperfeiçoar as três
potências da alma e como nelas produzem vazio e trevas".
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E no miolo do capítulo ouvimos novamente:
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"[...] as três virtudes teologais - fé, esperança e caridade
-, que têm relação com as três potências como próprios objetos
sobrenaturais, e mediante os quais a alma se une com Deus segundo suas
potências, produzem, cada uma em sua potência, o mesmo vazio e
obscuridade. A fé, no entendimento [...]".
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Estamos diante de algo equivalente a uma definição da fé e das
demais virtudes teologais. O Doutor Místico, avançando no intento
de determinar as funções do meio de união, toma cada virtude
teologal em sua função própria (in actu exercito), e a 'define'
por sua participação dinâmica na união. Estas definições
dinâmicas estão indicando que a virtude teologal une a Deus a
'potência - raiz' e, ao mesmo tempo, sugere de passagem como
realiza a função unitiva: a realiza pela purificação da respectiva
potência, produzindo nela "vazio e trevas" e apresentando-lhes um
objeto sobrenatural. Não deixa de nos surpreender o seguinte texto
sanjoanista: " têm relação com as ditas três potências como
próprios objetos sobrenaturais". A valente cláusula supõe a
aceitação integral da teoria da informação da potência pelo objeto
mediante o ato conatural. Por exemplo: o apetite natural mediante o
ato em que intervém a vontade; esta fica informada pelo objeto natural
desse apetite.
Porém disto nos ocuparemos mais abaixo. Concluamos, pois, dizendo
que as potências espirituais se potencializam pelas virtudes teologais
correspondentes em ordem aos objetos sobrenaturais. O que quer dizer:
mediante as virtudes teologais, cada potência é informada de modo
sobrenatural segundo as exigências de sua própria entidade. Porem
também isto esclareceremos mais tarde, analisando Subida I 4.
No momento basta afirmar que a definição dinâmica de cada virtude
teologal nos manifesta, ao mesmo tempo, a função principal própria
e o modo como a realiza. Para São João da Cruz, este último
significa também a expulsão da forma natural existente na potência e
o feito da nova informação; isto é, a implantação de forma
sobrenatural. Porque as virtudes teologais são como instrumentos
pelos quais as potências em que se radicam se projetam a objetos
sobrenaturais.
Disto segue que há uma estreita relação entre as virtudes teologais
e as referidas potências. Não se trata, sem dúvida, de uma
relação meramente de árvore e raiz, mas sim, de uma relação de
penetração ou de inerência no sujeito. Deste modo, qualquer
virtude teologal, ao apossar-se da potência correspondente, trabalha
nela, dentro dela, na direção da união ou transformação
participada. Neste sentido, por conseguinte, se fala da relação
'fé - entendimento', ou de quanto a fé é uma virtude ou força
que penetra ou invade sua natureza, trabalha dentro dele, o esvazia de
sua função natural e o capacita para uma função sobrenatural e,
finalmente, o separa das criaturas e o une a Deus.
Este é o esquema sanjoanista da mútua, íntima e vital relação
'fé - entendimento'. Talvez melhor dizendo: o fato da
dependência, já que o modo, a evolução e o que se segue a essa
dependência ou inerência constituem o campo ainda inexplorado da
natureza psicológica da fé. Para investigar em profundidade seria
preciso aquilatar ainda mais o pensamento sanjoanista sobre a natureza
do "sujeito" da fé.
Contentemo-nos, sem dúvida, em observar e sublinhar como se
apresenta realmente. No decurso da obra do Doutor Místico, à
medida que se perfila mais claramente a natureza da fé, também se
perfila com mais agudeza a índole própria do entendimento. Ambas as
realidades aparecem mútua e vitalmente compenetradas, de maneira que
não é possível investigar uma sem que apareça a outra em seguida, e
assim é preciso analisa-las conjuntamente quanto a sua natureza, a
sua índole e a seu dinamismo. São melhor estudadas em conjunto do
que separadamente.
Em suma a fé é meio sobrenatural de união para o entendimento, que
capacita de algum modo para participar da Divindade.
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