|
Antes de passar adiante em nossa análise será oportuno deter-nos um
pouco para examinar o texto de Subida II 5,2. O Doutor
Místico nos oferece ali, ao ensinar o que devemos entender por união
da alma com Deus, a seguinte explicação:
|
"Limitar-me-ei a tratar agora apenas desta união total e permanente
segundo a substância da alma e suas potências, quanto ao hábito
obscuro de união, porque quanto ao ato, depois diremos, com a graça
divina, como não pode haver união permanente nas potências desta
vida, senão transitória".
|
|
Exegese : Distingue nitidamente a união habitual e a união atual,
declarando em que consiste cada uma. Nesta vida, diz, a união atual
não pode acontecer de modo permanente nas potências da alma; será,
portanto, de modo transitório. Fala-se das potências da alma;
portanto, não se inclui a substância [32].
Porem, que significa então a união atual e permanente na substância
da alma? Somente a substância é capaz do ato de união?
Atendo-nos à mente do Doutor Místico, teríamos que responder à
segunda questão com um não, já que a substância da alma é incapaz
de atos se não por meio das potências. Nesta vida, a substância
junto com suas potências é capaz de chegar à união permanente de
modo habitual obscuro. Ao contrário, as potências são capazes,
ainda mais, de união atual, embora não permanente, mas
transitória.
Pois bem este ato de união intelectual, é, ou não, ato de fé?
Isto é o que tratamos de verificar. Certamente, a fé constitui o
meio próprio de união do entendimento com Deus. Porem, veremos
mais abaixo, como e em que sentido o ato de fé pode ser dito ato de
união.
Outro problema: que nexo ou relação com a fé, tem a união
habitual do entendimento com Deus?
Será necessário reter à vista, com base no texto citado, a
distinção "quanto ao habito" - "quanto ao ato" (quoad habitum -
quoad actum). Ela nos permite mostrar que o Doutor Místico usa a
terminologia escolástica para assinalar diferentes perfeições da
potência. Uma coisa é estar unidos a Deus habitualmente, outra
coisa é estar atualmente (quoad habitum - quoad actum).
Porem esta observação valerá para a pesquisa seguinte.
Resumindo agora tudo o que foi exposto nos itens de 1 a 4, o
resultado das análises nos permite constatar que a fé aparece em
Subida, primariamente, como meio de união do entendimento com
Deus. Meio proporcional, próprio, próximo, acomodado, adequado
e legítimo. Todos estes adjetivos não diferem muito entre si, já
que todos apontam para corroborar que a fé é um meio que por sua
natureza e por suas qualidades próprias é apto para obter o fim.
Pois bem, a 'fé - meio' introduz uma respeitabilidade concreta no
pensamento do Doutor Místico: a união intelectual com Deus.
O texto de Subida II 8,3 é capital para compreender a natureza
deste meio ou, melhor, as exigências fundamentais de sua natureza.
Com efeito, aí está o núcleo da doutrina de São João da Cruz
sobre o problema da fé. A semelhança essencial com Deus,
necessária para que haja meio proporcional de união, coloca a fé em
linha sobrenatural, e, simultaneamente, a ordem dessa semelhança ao
intelecto postula sua índole intencional.
Os textos posteriormente analisados servem, sobretudo para confirmar o
que Subida II 8,3 nos revelou.
Em primeiro lugar, a fé é meio proporcional para a união
sobrenatural, pelo qual a alma participa da Divindade, que se
comunica pela graça, e pelo amor a união pode alcançar o sumo grau
de 'união transformadora'.
Em segundo lugar, vimos também como o Doutor Místico concebe a
relação 'fé - entendimento' em um plano dinâmico de caminho e
avanço até Deus.
Com estes dados já temos fixado o estado da questão e temos a porta
aberta para ulteriores sondagens.
|
|