|
Segundo dissemos antes, para nosso tema é de máxima importância o
conceito sanjoanista de "semelhança essencial". Em Subida II
8,3 distingue duas acepções de semelhança: uma, relativa ao
ser; outra, relativa ao entendimento. Ambas pertencem à idéia
básica de meio proporcional para a união do entendimento com Deus, e
a razão de uma apoia a outra.
O Doutor Místico afirma sem dúvida que nenhuma criatura, por
perfeita que seja, pode fazer seu entendimento capaz de conhecer as
realidades criadas e buscar o rastro de Deus nelas, até a
Divindade. A criatura, enquanto tal, não é apta a unir o
entendimento a Deus, por carecer de semelhança essencial com a
Divindade. Em contraposição, a fé a possui.
Todo o desenvolvimento ou evolução da doutrina de São João da
Cruz neste capítulo e no seguinte - Subida II 8 e 9 - segue a
trama do conceito fundamental de "semelhança essencial". E dele
deriva a tese sobre a absoluta incapacidade e insuficiência do
entendimento para alcançar a união por suas próprias forças
naturais. Em Subida II 8, 4-7, o Doutor Místico exclui a
possibilidade por duas razões.
Primeira:
|
"Se falamos do ponto de vista natural, como o entendimento não pode
entender coisa que não cabe e que está abaixo das formas e fantasias
das coisas que se recebe pelos sentidos corporais, as quais já
dissemos que não podem servir de meio, não se pode aproveitar da
inteligência natural".
|
|
Supõe-se e se parte aqui da teoria corrente sobre a natureza do
conhecimento intelectual, que no estado de união da alma e do corpo
depende dos sentidos. O que ao entendimento chega através dos
sentidos são coisas naturais, materiais, desprovidas de toda
relação e proporção com a Divindade. Portanto, o entendimento
está ordenado nesta vida, de seu, a penetrar cognitivamente essas
coisas, porem se exclui dele a possibilidade de chegar à divina
essência.
Segunda:
|
"[...] se falamos do ponto de vista sobrenatural segundo o que se
pode nesta vida, não tem o entendimento disposição nem capacidade
convenientes no cárcere do corpo para receber noticia clara de Deus,
porque ou há de morrer ou não ha de a receber".
|
|
Exclui, pois, a visão da divina essência no estado de união da
alma com o corpo. É uma afirmação simples. Porém prossigamos lendo:
|
"Portanto, nenhuma noticia nem apreensão sobrenatural, neste estado
mortal, pode servir de meio próximo para a alta união de amor com
Deus. Porque tudo o que pode entender o entendimento, e gostar a
vontade, e fabricar a imaginação é muito dessemelhante e
desproporcional, como dissemos, a Deus".
|
|
Esta conclusão - cujos frutos próprios se verão depois,
especialmente em "noite ativa do espírito" -, embora aparentemente
termine no mesmo do anterior, alinhando a atividade natural do
entendimento, na realidade penetra mais fundo, pois toca a condição
essencial do sujeito; "o que pode o entendimento" significa que por
si só, abandonado a suas próprias forças, é incapaz de conceber e
receber a semelhança da Divindade. Por conseguinte, de modo nenhum
poderá chegar a ela. Esta é sua própria condição. E isto
implica, como se diz em Subida II 3, uma insuficiência
essencial. Mais ainda: pela mesma razão, qualquer "noticia ou
apreensão sobrenatural" que possa se apresentar conaturalmente no
estado atual de vida é necessariamente defeituoso como meio próximo de
união com Deus. Razão: porque de seu estão abertas a que o
entendimento as penetre ou entenda. As "possa entender", diz o
Doutor Místico.
O motivo, pois, da insuficiência em relação à função unitiva
provem de sua conaturalidade ao intelecto. Nesta conaturalidade está
implícita a mesma idéia que estamos expondo, isto é, que o
entendimento não é por si, abandonado a suas próprias forças,
capaz de chegar à união com Deus.
Esta doutrina é de máxima importância no problema da fé. Veremos
mais abaixo como a insuficiência nativa do entendimento se potencializa
ou resolve pela fé e na fé. Porem podemos antecipar que, já no
mesmo capítulo - Subida II 8, 5-6 -, o Doutor Místico,
considerando esta profunda incapacidade do entendimento em relação ao
divino, esboça a solução:
|
"Para chegar a ele [a Deus], antes se há de ir não entendendo do
que procurando entender, e antes pondo-se em trevas e cegando-se,
que abrindo os olhos para chegar mais ao raio divino".
|
|
Acrescenta ainda algumas reflexões sobre a contemplação; estando
assim as coisas, diz, não pode ser nesta vida mais que
|
"uma sabedoria secreta de Deus";
|
|
ou seja, sempre obscura:
|
"é secreta ao mesmo entendimento que a recebe".
|
|
E acrescenta:
|
"E por isso a chama São Dionísio raio de trevas".
|
|
Podemos ver como o princípio da "semelhança essencial" continua
invadindo profundamente o fluir da exposição sanjoanista,
traspassando-a e dinamizando-a desde a linha entitativa até a linha
intencional; como toda ela está pendendo deste princípio; como nele
se enraízam conclusões radicais para nosso tema.
Todas estas considerações e as sucessivas aproximações preparam o
caminho para o que São João da Cruz afirmará em Subida II 9.
A epígrafe mesma deste capítulo supõe já uma grande exatidão ao
determinar como e em que sentido a fé é, para o Doutor Místico,
meio de união:
|
"Como a fé é meio próximo e proporcional para o entendimento para
que a alma possa chegar à divina união de amor".
|
|
De início, portanto, indica a função específica da fé e
determina estupendamente a potência em que se exerce; é a saber, no
entendimento. Sem omitir, por outro lado, a relação de fé com a
total união da alma com Deus, união que progride e se consuma pelo
amor.
A marcha deste capítulo está pendente do conceito de
"semelhança", que, como já vimos e voltaremos a ver, é o núcleo
de condensação da teologia sanjoanista da união. No capítulo
anterior ficou bem assentado que a fé é possuidora da semelhança
essencial com Deus, e que ela é apta para unir o entendimento a
Ele. O capítulo presente determina como é esta semelhança e como
se deve entende-la:
|
"[...] fé, a qual é o único meio próximo e proporcional para
que a alma se una com Deus; porque é tanta a semelhança que há
entre ele e Deus, que não há outra diferença senão ser Deus visto
ou crido".
|
|
Ato seguido, pois, a 'semelhança' se transpõe à linha
intencional, e se explica pela diferença existente entre fé e visão beatífica:
"Deus visto" significa que a essência de Deus é claramente
percebida no entendimento, estando a Divindade nele como o conhecido
no que conhece (tanquam cognitum in cognoscente).
"Deus crido" quer dizer que a Divindade está também no
entendimento como o objeto conhecido no que conhece. Porem há uma
enorme diferença entre o 'visto' e o 'crido': o entendimento na
fé percebe a essência divina sem clareza. É uma percepção
obscura, crida. Reaparece a índole intencional da fé. À luz deste
texto se compreende melhor os seguintes. O Doutor Místico põe como
nota característica da fé a obscuridade, e sustenta que
|
"debaixo
destas trevas se junta com Deus o entendimento e debaixo delas está
Deus escondido".
|
|
Que o entendimento se une a Deus na obscuridade
eqüivale dizer que alcança a essência divina, e nisso precisamente
consiste a união.
Se reduzirmos o pensamento a uma pergunta direta: Por que a fé é
meio de união intelectual?, teríamos que responder: Porque nela e
por ela o entendimento conhece a essência divina e se une com ela como
por seu ato natural se une a qualquer objeto que lhe seja conatural.
Sem dúvida, com um matiz diferencial no conhecimento pela fé: sem
clareza, obscuramente. E por isso diz que Deus está escondido na
fé, embora esteja no entendimento pela fé como o objeto conhecido na
potência cognitiva.
O sentido do texto citado por último é conseqüente ao modo de
entender a "semelhança". Como esta foi reduzida a um plano visual,
e nele se aplicou à fé, segue-se que a razão essencial da união do
entendimento com Deus consiste na junção 'sujeito - objeto'
(potência cognitiva, objeto conhecido), em virtude da qual "se
junta com Deus o entendimento", e o conhecido existe no sujeito
intencionalmente: "está Deus escondido". Neste sentido se dá,
portanto, a identificação intencional do sujeito com o objeto. Não
obstante, permanece sempre a condição de obscuridade, a condição
de "não visto". E, por este motivo, o problema da fé volta a se
abrir.
Diríamos que o Doutor Místico rumina esta sublime afirmação no
capítulo que estamos analisando - Subida II 9 - para crava-la
mais profundamente na memória do leitor. Por isso a repete de várias
maneiras, recorrendo aos símbolos e personagens bíblicos que,
segundo sua exegese, a expressam concretamente. Assim, a passagem de
3 Re 8,12, onde se lê que Javé prometeu a Salomão permanecer
"nas trevas" no novo templo; outra passagem iluminante é a
'visão' relatada em Sal 17,10:
|
"A obscuridade pôs debaixo de seus pés, e subiu sobre os
querubins, e voou sobre as plumas do vento, e pôs por esconderijo as
trevas e a água tenebrosa".
|
|
Também evoca as cenas de Jó (38, 1 e 40,1), a quem Deus
falava " a partir do ar tenebroso".
Comentando esses e outros textos bíblicos, escreve o Doutor
Místico: as trevas
|
"significam a obscuridade da fé, na qual está
encoberta a Divindade comunicando-se com a alma; as quais se
dissiparão como diz São Paulo, 'se acabará o que é imperfeito'
(1Cor 13,10), que é esta obscuridade da fé, e virá 'o que
é perfeito', que é a divina luz".
|
|
Não perde de vista a idéia central; compara a fé à visão; em uma
e em outra se conhece a Divindade, embora de maneiras distintas: na
fé, escondida na obscuridade do entendimento do 'homo viator'; na
visão, claramente graças à luz divina (lumen gloriae).
Por conseguinte, a passagem da fé à visão aparece nos textos como
uma relação essencialmente idêntica; já se dá na fé a união com
o objeto divino, só que aprisionada ou condicionada pela obscuridade
- as trevas divinas -, enquanto a visão facial está já liberada da
obscuridade e das trevas que acompanham a fé.
Isto fica evidente no episódio da milícia de Gedeão (Jz 7,
16). Os soldados de Gedeão, apesar de levarem nas mãos
lâmpadas acesas, não viam, porque a luz estava dentro de vasos de
barro; rompidos estes, viram já com toda clareza. Isto é o que
ocorre com a fé:
|
"Assim, a fé, que é figurada por aqueles vasos, contem em si a
divina luz; a qual, acabada e quebrada pela quebra e fim desta vida
mortal, logo aparecerá na glória e luz da Divindade que em si continha".
|
|
A maior abundância , o Doutor Místico ilustra o texto com a
explicação seguinte:
|
"[...] ter em suas mãos - isto é, nas obras de sua vontade -
a luz, que é a união de amor, embora às escuras na fé, para que
logo, quebrando-se os vasos desta vida, único impedimento à luz da
fé, se veja face a face na glória".
|
|
O texto sanjoanista nos insta a ver duas coisas: primeiro, a
relação existente entre a fé e a união de amor na vida atual;
segundo, a relação existente entre a fé e a visão beatífica ou
facial.
A luz da vida presente é a união de amor, escondida na obscuridade
da fé. A morte rompe a obscuridade da fé, e a união da Pátria se
consuma na luz da visão facial. Dá-se o salto da união obscura à
união luminosa.
Como se deve notar, sempre a fé é apresentada em Subida II 9
como algo ao mesmo tempo luminoso e obscuro.
Luminosa é a Divindade, que é conhecida pela fé, e por ela se une
ao entendimento, e por ela vive intencionalmente nele - segundo consta
pela análise total de Subida II 8 e 9. Mais exatamente:
escondida intencionalmente no entendimento. E por esse feito gozoso da
'Divindade escondida' descobrimos a índole entranhável da fé; a
saber, sua obscuridade. Tema que exige um estudo amplo e profundo.
O que aqui prevalece, o constitutivo - se nos permite uma expressão
técnica -, diz numa frase profunda:
|
"por este único meio - ou
seja, pela fé - se manifesta Deus à alma em divina luz, que excede
todo entendimento. E, portanto, quanto mais tem fé a alma, mais
unida está a Deus".
|
|
O sentido é óbvio: a fé une o entendimento com Deus por sua luz,
na qual se vê Deus enquanto Deus. Que significa "Deus se
manifesta à alma"? Certamente, não uma visão, mas a raiz de
chegar a Deus, de conhecer a divina essência. Em outras palavras;
não o modo de conhecer, que permanece, segundo afirma
insistentemente, obscuro; senão o feito mesmo.
A esta interpretação nos leva o amplo e atento exame do capítulo
anterior - Subida II 8 -, e também o presente. "Deus se
manifesta" expressa a razão de conhecer o "divino ser", a divina
essência sob o aspecto íntimo de Divindade; razão que se apoia,
uma vez mais, na "semelhança essencial", que, como vimos, em
nenhuma criatura, por perfeita que seja, se acha. Portanto, todo o
ritmo doutrinal dos capítulos 8 e 9 de Subida II nos leva a esta
interpretação da frase "Deus se manifesta à alma", na qual se
justifica também a razão de ser da "semelhança essencial",
atribuída à fé com este fim. Deus se manifesta ao entendimento -
no sentido dito - mediante uma luz divina que excede a qualquer
entendimento criado, "a todo entendimento", tanto quantitativo
quanto qualitativo.
Com esta afirmação, São João da Cruz responde ao problema
proposto no capítulo anterior. A luz divina que a ilumina é , com
efeito, a razão formal pela qual a fé ultrapassa a capacidade da
natureza criada, e, portanto, também a capacidade natural do
entendimento humano.
Vemos, pois, que a noção de "semelhança essencial" atribuída à
fé se vai perfilando e precisando. E isto sob dois pontos de vista:
|
- entitativamente, ao dizer que excede a capacidade natural de toda a
criatura;
- intencionalmente, ao asseverar que essa luz potencializa o
entendimento, facultando-o para conhecer a Divindade.
|
|
Ele quer apontar que a 'luz' pertence à essência da fé e que não
se deve considerá-la só como uma modalidade. Isto parece claro no
texto sanjoanista. Se, em um primeiro instante, a fé foi definida
'meio proporcional de união' - enquanto faz com que o entendimento
alcance a essência divina como objeto conhecido, embora
"escondido", segundo vimos na análise dos textos -,devemos admitir
que a raiz desta função e a própria razão de ser, determinante de
seu dinamismo mediador, consiste em que "Deus se manifesta à alma em
uma luz divina que excede todo entendimento". Portanto, a razão de
'luz' é essencial na fé, já que pertence a sua íntima natureza.
E, em conseqüência, a fé é luz, e luz divina, da mesma ordem
que a Divindade e estranha à mera ordem natural.
Sem dúvida, a fé é também, ao mesmo tempo, "obscuridade e
trevas". O Doutor Místico nunca se esquece de afirmar a
obscuridade da fé junto a sua luminosidade. A Divindade conhecida
pela fé não ilumina, mas se torna 'intencionalmente escondida'. E
assim, o problema da fé em São João da Cruz nos abre uma nova
vertente.
Para analisar, teremos que dirigir nossa vista ao plano psicológico
da fé. Já vimos, primeiro, que é meio de união; segundo, por
que o é; agora devemos, em terceira instancia, averiguar como o é.
Encontramo-nos, por conseguinte, ante a questão da natureza da fé
sob o aspecto psicológico.
Que é o novo tema que, com a ajuda de Deus, vamos atacar
imediatamente.
|
|