5. A FÉ NA QUAL ESTÁ ENCOBERTA A DIVINDADE.

Segundo dissemos antes, para nosso tema é de máxima importância o conceito sanjoanista de "semelhança essencial". Em Subida II 8,3 distingue duas acepções de semelhança: uma, relativa ao ser; outra, relativa ao entendimento. Ambas pertencem à idéia básica de meio proporcional para a união do entendimento com Deus, e a razão de uma apoia a outra.

O Doutor Místico afirma sem dúvida que nenhuma criatura, por perfeita que seja, pode fazer seu entendimento capaz de conhecer as realidades criadas e buscar o rastro de Deus nelas, até a Divindade. A criatura, enquanto tal, não é apta a unir o entendimento a Deus, por carecer de semelhança essencial com a Divindade. Em contraposição, a fé a possui.

Todo o desenvolvimento ou evolução da doutrina de São João da Cruz neste capítulo e no seguinte - Subida II 8 e 9 - segue a trama do conceito fundamental de "semelhança essencial". E dele deriva a tese sobre a absoluta incapacidade e insuficiência do entendimento para alcançar a união por suas próprias forças naturais. Em Subida II 8, 4-7, o Doutor Místico exclui a possibilidade por duas razões.

Primeira:

"Se falamos do ponto de vista natural, como o entendimento não pode entender coisa que não cabe e que está abaixo das formas e fantasias das coisas que se recebe pelos sentidos corporais, as quais já dissemos que não podem servir de meio, não se pode aproveitar da inteligência natural".

Supõe-se e se parte aqui da teoria corrente sobre a natureza do conhecimento intelectual, que no estado de união da alma e do corpo depende dos sentidos. O que ao entendimento chega através dos sentidos são coisas naturais, materiais, desprovidas de toda relação e proporção com a Divindade. Portanto, o entendimento está ordenado nesta vida, de seu, a penetrar cognitivamente essas coisas, porem se exclui dele a possibilidade de chegar à divina essência.

Segunda:

"[...] se falamos do ponto de vista sobrenatural segundo o que se pode nesta vida, não tem o entendimento disposição nem capacidade convenientes no cárcere do corpo para receber noticia clara de Deus, porque ou há de morrer ou não ha de a receber".

Exclui, pois, a visão da divina essência no estado de união da alma com o corpo. É uma afirmação simples. Porém prossigamos lendo:

"Portanto, nenhuma noticia nem apreensão sobrenatural, neste estado mortal, pode servir de meio próximo para a alta união de amor com Deus. Porque tudo o que pode entender o entendimento, e gostar a vontade, e fabricar a imaginação é muito dessemelhante e desproporcional, como dissemos, a Deus".

Esta conclusão - cujos frutos próprios se verão depois, especialmente em "noite ativa do espírito" -, embora aparentemente termine no mesmo do anterior, alinhando a atividade natural do entendimento, na realidade penetra mais fundo, pois toca a condição essencial do sujeito; "o que pode o entendimento" significa que por si só, abandonado a suas próprias forças, é incapaz de conceber e receber a semelhança da Divindade. Por conseguinte, de modo nenhum poderá chegar a ela. Esta é sua própria condição. E isto implica, como se diz em Subida II 3, uma insuficiência essencial. Mais ainda: pela mesma razão, qualquer "noticia ou apreensão sobrenatural" que possa se apresentar conaturalmente no estado atual de vida é necessariamente defeituoso como meio próximo de união com Deus. Razão: porque de seu estão abertas a que o entendimento as penetre ou entenda. As "possa entender", diz o Doutor Místico.

O motivo, pois, da insuficiência em relação à função unitiva provem de sua conaturalidade ao intelecto. Nesta conaturalidade está implícita a mesma idéia que estamos expondo, isto é, que o entendimento não é por si, abandonado a suas próprias forças, capaz de chegar à união com Deus.

Esta doutrina é de máxima importância no problema da fé. Veremos mais abaixo como a insuficiência nativa do entendimento se potencializa ou resolve pela fé e na fé. Porem podemos antecipar que, já no mesmo capítulo - Subida II 8, 5-6 -, o Doutor Místico, considerando esta profunda incapacidade do entendimento em relação ao divino, esboça a solução:

"Para chegar a ele [a Deus], antes se há de ir não entendendo do que procurando entender, e antes pondo-se em trevas e cegando-se, que abrindo os olhos para chegar mais ao raio divino".

Acrescenta ainda algumas reflexões sobre a contemplação; estando assim as coisas, diz, não pode ser nesta vida mais que

"uma sabedoria secreta de Deus";

ou seja, sempre obscura:

"é secreta ao mesmo entendimento que a recebe".

E acrescenta:

"E por isso a chama São Dionísio raio de trevas".

Podemos ver como o princípio da "semelhança essencial" continua invadindo profundamente o fluir da exposição sanjoanista, traspassando-a e dinamizando-a desde a linha entitativa até a linha intencional; como toda ela está pendendo deste princípio; como nele se enraízam conclusões radicais para nosso tema.

Todas estas considerações e as sucessivas aproximações preparam o caminho para o que São João da Cruz afirmará em Subida II 9. A epígrafe mesma deste capítulo supõe já uma grande exatidão ao determinar como e em que sentido a fé é, para o Doutor Místico, meio de união:

"Como a fé é meio próximo e proporcional para o entendimento para que a alma possa chegar à divina união de amor".

De início, portanto, indica a função específica da fé e determina estupendamente a potência em que se exerce; é a saber, no entendimento. Sem omitir, por outro lado, a relação de fé com a total união da alma com Deus, união que progride e se consuma pelo amor.

A marcha deste capítulo está pendente do conceito de "semelhança", que, como já vimos e voltaremos a ver, é o núcleo de condensação da teologia sanjoanista da união. No capítulo anterior ficou bem assentado que a fé é possuidora da semelhança essencial com Deus, e que ela é apta para unir o entendimento a Ele. O capítulo presente determina como é esta semelhança e como se deve entende-la:

"[...] fé, a qual é o único meio próximo e proporcional para que a alma se una com Deus; porque é tanta a semelhança que há entre ele e Deus, que não há outra diferença senão ser Deus visto ou crido".

Ato seguido, pois, a 'semelhança' se transpõe à linha intencional, e se explica pela diferença existente entre fé e visão beatífica:

Deus visto - Deus crido.

"Deus visto" significa que a essência de Deus é claramente percebida no entendimento, estando a Divindade nele como o conhecido no que conhece (tanquam cognitum in cognoscente).

"Deus crido" quer dizer que a Divindade está também no entendimento como o objeto conhecido no que conhece. Porem há uma enorme diferença entre o 'visto' e o 'crido': o entendimento na fé percebe a essência divina sem clareza. É uma percepção obscura, crida. Reaparece a índole intencional da fé. À luz deste texto se compreende melhor os seguintes. O Doutor Místico põe como nota característica da fé a obscuridade, e sustenta que

"debaixo destas trevas se junta com Deus o entendimento e debaixo delas está Deus escondido".

Que o entendimento se une a Deus na obscuridade eqüivale dizer que alcança a essência divina, e nisso precisamente consiste a união.

Se reduzirmos o pensamento a uma pergunta direta: Por que a fé é meio de união intelectual?, teríamos que responder: Porque nela e por ela o entendimento conhece a essência divina e se une com ela como por seu ato natural se une a qualquer objeto que lhe seja conatural. Sem dúvida, com um matiz diferencial no conhecimento pela fé: sem clareza, obscuramente. E por isso diz que Deus está escondido na fé, embora esteja no entendimento pela fé como o objeto conhecido na potência cognitiva.

O sentido do texto citado por último é conseqüente ao modo de entender a "semelhança". Como esta foi reduzida a um plano visual, e nele se aplicou à fé, segue-se que a razão essencial da união do entendimento com Deus consiste na junção 'sujeito - objeto' (potência cognitiva, objeto conhecido), em virtude da qual "se junta com Deus o entendimento", e o conhecido existe no sujeito intencionalmente: "está Deus escondido". Neste sentido se dá, portanto, a identificação intencional do sujeito com o objeto. Não obstante, permanece sempre a condição de obscuridade, a condição de "não visto". E, por este motivo, o problema da fé volta a se abrir.

Diríamos que o Doutor Místico rumina esta sublime afirmação no capítulo que estamos analisando - Subida II 9 - para crava-la mais profundamente na memória do leitor. Por isso a repete de várias maneiras, recorrendo aos símbolos e personagens bíblicos que, segundo sua exegese, a expressam concretamente. Assim, a passagem de 3 Re 8,12, onde se lê que Javé prometeu a Salomão permanecer "nas trevas" no novo templo; outra passagem iluminante é a 'visão' relatada em Sal 17,10:

"A obscuridade pôs debaixo de seus pés, e subiu sobre os querubins, e voou sobre as plumas do vento, e pôs por esconderijo as trevas e a água tenebrosa".

Também evoca as cenas de Jó (38, 1 e 40,1), a quem Deus falava " a partir do ar tenebroso".

Comentando esses e outros textos bíblicos, escreve o Doutor Místico: as trevas

"significam a obscuridade da fé, na qual está encoberta a Divindade comunicando-se com a alma; as quais se dissiparão como diz São Paulo, 'se acabará o que é imperfeito' (1Cor 13,10), que é esta obscuridade da fé, e virá 'o que é perfeito', que é a divina luz".

Não perde de vista a idéia central; compara a fé à visão; em uma e em outra se conhece a Divindade, embora de maneiras distintas: na fé, escondida na obscuridade do entendimento do 'homo viator'; na visão, claramente graças à luz divina (lumen gloriae).

Por conseguinte, a passagem da fé à visão aparece nos textos como uma relação essencialmente idêntica; já se dá na fé a união com o objeto divino, só que aprisionada ou condicionada pela obscuridade - as trevas divinas -, enquanto a visão facial está já liberada da obscuridade e das trevas que acompanham a fé.

Isto fica evidente no episódio da milícia de Gedeão (Jz 7, 16). Os soldados de Gedeão, apesar de levarem nas mãos lâmpadas acesas, não viam, porque a luz estava dentro de vasos de barro; rompidos estes, viram já com toda clareza. Isto é o que ocorre com a fé:

"Assim, a fé, que é figurada por aqueles vasos, contem em si a divina luz; a qual, acabada e quebrada pela quebra e fim desta vida mortal, logo aparecerá na glória e luz da Divindade que em si continha".

A maior abundância , o Doutor Místico ilustra o texto com a explicação seguinte:

"[...] ter em suas mãos - isto é, nas obras de sua vontade - a luz, que é a união de amor, embora às escuras na fé, para que logo, quebrando-se os vasos desta vida, único impedimento à luz da fé, se veja face a face na glória".

O texto sanjoanista nos insta a ver duas coisas: primeiro, a relação existente entre a fé e a união de amor na vida atual; segundo, a relação existente entre a fé e a visão beatífica ou facial.

A luz da vida presente é a união de amor, escondida na obscuridade da fé. A morte rompe a obscuridade da fé, e a união da Pátria se consuma na luz da visão facial. Dá-se o salto da união obscura à união luminosa.

Como se deve notar, sempre a fé é apresentada em Subida II 9 como algo ao mesmo tempo luminoso e obscuro.

Luminosa é a Divindade, que é conhecida pela fé, e por ela se une ao entendimento, e por ela vive intencionalmente nele - segundo consta pela análise total de Subida II 8 e 9. Mais exatamente: escondida intencionalmente no entendimento. E por esse feito gozoso da 'Divindade escondida' descobrimos a índole entranhável da fé; a saber, sua obscuridade. Tema que exige um estudo amplo e profundo. O que aqui prevalece, o constitutivo - se nos permite uma expressão técnica -, diz numa frase profunda:

"por este único meio - ou seja, pela fé - se manifesta Deus à alma em divina luz, que excede todo entendimento. E, portanto, quanto mais tem fé a alma, mais unida está a Deus".

O sentido é óbvio: a fé une o entendimento com Deus por sua luz, na qual se vê Deus enquanto Deus. Que significa "Deus se manifesta à alma"? Certamente, não uma visão, mas a raiz de chegar a Deus, de conhecer a divina essência. Em outras palavras; não o modo de conhecer, que permanece, segundo afirma insistentemente, obscuro; senão o feito mesmo.

A esta interpretação nos leva o amplo e atento exame do capítulo anterior - Subida II 8 -, e também o presente. "Deus se manifesta" expressa a razão de conhecer o "divino ser", a divina essência sob o aspecto íntimo de Divindade; razão que se apoia, uma vez mais, na "semelhança essencial", que, como vimos, em nenhuma criatura, por perfeita que seja, se acha. Portanto, todo o ritmo doutrinal dos capítulos 8 e 9 de Subida II nos leva a esta interpretação da frase "Deus se manifesta à alma", na qual se justifica também a razão de ser da "semelhança essencial", atribuída à fé com este fim. Deus se manifesta ao entendimento - no sentido dito - mediante uma luz divina que excede a qualquer entendimento criado, "a todo entendimento", tanto quantitativo quanto qualitativo.

Com esta afirmação, São João da Cruz responde ao problema proposto no capítulo anterior. A luz divina que a ilumina é , com efeito, a razão formal pela qual a fé ultrapassa a capacidade da natureza criada, e, portanto, também a capacidade natural do entendimento humano.

Vemos, pois, que a noção de "semelhança essencial" atribuída à fé se vai perfilando e precisando. E isto sob dois pontos de vista:

- entitativamente, ao dizer que excede a capacidade natural de toda a criatura;

- intencionalmente, ao asseverar que essa luz potencializa o entendimento, facultando-o para conhecer a Divindade.

Ele quer apontar que a 'luz' pertence à essência da fé e que não se deve considerá-la só como uma modalidade. Isto parece claro no texto sanjoanista. Se, em um primeiro instante, a fé foi definida 'meio proporcional de união' - enquanto faz com que o entendimento alcance a essência divina como objeto conhecido, embora "escondido", segundo vimos na análise dos textos -,devemos admitir que a raiz desta função e a própria razão de ser, determinante de seu dinamismo mediador, consiste em que "Deus se manifesta à alma em uma luz divina que excede todo entendimento". Portanto, a razão de 'luz' é essencial na fé, já que pertence a sua íntima natureza. E, em conseqüência, a fé é luz, e luz divina, da mesma ordem que a Divindade e estranha à mera ordem natural.

Sem dúvida, a fé é também, ao mesmo tempo, "obscuridade e trevas". O Doutor Místico nunca se esquece de afirmar a obscuridade da fé junto a sua luminosidade. A Divindade conhecida pela fé não ilumina, mas se torna 'intencionalmente escondida'. E assim, o problema da fé em São João da Cruz nos abre uma nova vertente.

Para analisar, teremos que dirigir nossa vista ao plano psicológico da fé. Já vimos, primeiro, que é meio de união; segundo, por que o é; agora devemos, em terceira instancia, averiguar como o é. Encontramo-nos, por conseguinte, ante a questão da natureza da fé sob o aspecto psicológico.

Que é o novo tema que, com a ajuda de Deus, vamos atacar imediatamente.