6. HÁBITO CERTO E OBSCURO.

Convém observar em primeiro lugar que estas duas coisas, luz e trevas, estão sempre tão intimamente conexas na fé, que o que se diga de uma deverá ser dito , correlativamente, da outra. Nunca a fé deixará de ser para nós luz em trevas, luz verdadeira e íntima da Divindade comunicada nas trevas que a acompanham.

Porém antes de passar adiante devemos extrair de Subida II 9 alguns dados que serão úteis depois.

Nunca poderemos perder de vista o conceito fundamental de "semelhança". Já vimos como e em que sentido o Doutor Místico aplica este termo à fé e como o tem em conta ao comparar o ato próprio da fé com a visão da Pátria.

Em continuação insiste em faze-lo compreender ao leitor, explicando:

"Porque assim como Deus é infinito, assim a fé no-lo propõe infinito; e assim como Deus é treva para nosso entendimento, assim ela também cega e deslumbra nosso entendimento".

É esta a explicação imediata de por que a "semelhança" é necessária para a fé e para a visão beatífica. Captadas com atenção estas idéias, não só nos situarão frente ao porque, mas também frente ao como. E assim teremos o terreno aberto para a pesquisa atual.

Afirma-se que a fé causa "semelhança" com Deus por dois motivos: primeiramente, porque origina a 'proporção'; em segundo lugar, pelo estado que produz.

A primeira razão é objetiva, já que a fé une o entendimento a Deus, propondo-lhe como verdade o que subsiste realmente em Deus. A segunda razão é típica da concepção sanjoanista da fé, pois o Doutor Místico ensina que a fé dá ao entendimento a 'semelhança' com Deus, porque assim como Deus em si mesmo, em seu íntimo ser, é trevas para o entendimento, assim também a fé cega e deslumbra o entendimento humano. O que significa que a fé une a Deus ao propor as verdades reveladas de Deus, que dizem o que Deus é em si e ademais faz com que o entendimento o conheça de um modo 'experimental'. Com este termo - 'experiência' - se caracteriza o conhecimento de fé, porque dá ao entendimento não só um conhecer íntimo e subjetivo, que implica a apresentação do objeto, mas também, e mais propriamente, 'sentir' o que Deus é. Não se trata, pois, de um abuso ou exagero verbal.

Igualmente é digna de ser sublinhada a segunda razão aduzida para provar que a fé é 'semelhança' da Divindade para o entendimento. Notemos, sobretudo, que se o fato de propor a verdade revelada pode reduzir a 'semelhança' da fé, de algum modo, a uma objetivação, também será certo que o segundo motivo de expressar a proporção da Divindade ao entendimento indica uma "semelhança" da fé em sentido subjetivo: Deus comunicado ao entendimento pela fé e recebido e experimentado em algum estado psicológico desta potência.

O 'estado psicológico' ou espécie psicológica de entendimento crente - mais certo seria dizer 'espécie psicológica' de entendimento, identificada com a fé - nos leva a refletir sobre o hábito de fé. Que é do que trata Subida II 3.

Vamos, pois, verificar se este "cega e deslumbra nosso entendimento", que parece um modo de falar mais literário e poético que estrito, indica realmente a "espécie psicológica" de entendimento que é a fé. Lemos:

"Dizem os teólogos que a fé é um hábito da alma certo e obscuro".

É um hábito (habitus). Pela primeira vez a reduz expressamente a essa categoria escolástica. Mais ainda: "dizem os teólogos" mostra que o Doutor Místico se refere à sentença comum da teologia escolástica, segundo a qual a fé é um hábito.

Certamente, já havíamos visto de passagem em Subida II 5,2 a distinção 'quanto ao hábito - quanto ao ato'. E podemos induzir agora: o hábito de fé dá à potência que o tem certa perfeição interior ao ato do ponto de vista do modo de atuar. Sabemos por Subida II 5,2 que a união habitual da substância e das potências com Deus se contrapõe à união atual; do mesmo modo, atendo-nos à letra do texto, segue-se que a união atual é mais perfeita, já que acrescenta uma ulterior perfeição à potência sobre a que lhe dava a união habitual. A perfeição da potência ordenada ao ato se toma de modo a intervir na ação. De onde o ato constitui uma perfeição definitiva na linha da ação, e, por conseguinte, também uma perfeição definitiva no modo de unir a Deus. Pelo contrário, o hábito expressa uma perfeição em um nível inferior, mais distante da definitiva e última, mais latente; sem dúvida, da mesma ordem.

Seguramente, este sentido de 'hábitus' em relação ao 'acto' se acha na obra do Doutor Místico. O termo e seu sentido provêm, sem dúvida, da filosofia escolástica, na qual 'habitus' retém o ser conceitualmente certa perfeição da potência, embora não apareçam, ao menos de modo expresso, as palavras da definição especulativa: 'habitus' é "uma qualidade difícil de arrancar" (qualitas difficile mobilis).

E, segundo os limites fixados até aqui, devemos analisar o tema proposto.

Dizer, pois que a fé é um 'habitus' significa que é uma perfeição do entendimento vinculada a determinado modo de ação e ordenada ao último nessa ordem; o último em linha reta é o ato. Isto é o que "dizem os teólogos", a cujas especulações o Doutor Místico nos remete, ou, pelo menos, isto é o que ele supõe, afirma e ensina, em completa harmonia com eles, embora o específico da sua doutrina provenha de outras fontes e vá a outras metas.

A fé, portanto, é um hábito certo e obscuro. São João da Cruz nos coloca imediatamente frente a esta formidável afirmação, explicando-nos a seguir por que este hábito é obscuro.

A razão fundamental aparece na superfície extremamente simples: "porque faz crer verdades reveladas pelo mesmo Deus". Sem dúvida, tão simples fórmula, facilmente acessível aos destinatários do tratado - as almas contemplativas, do Carmelo e de outros estados, que nem sempre conhecem teologia -, esconde um sentido profundo: as verdades divinamente reveladas estão fora do alcance da luz natural e ultrapassam absolutamente a capacidade intelectual do homem:

"as quais estão além de toda luz natural e excedem a todo entendimento humano, sem nenhuma proporção".

Neste texto sentimos novamente o ambiente primordial da "semelhança essencial" e da "proporção de semelhança". E fica patente que a íntima razão da "proporção de semelhança" enquadra a fé por seu valor objetivo: as verdades reveladas que fazem crer ao entendimento estão acima dele sem proporção alguma. São verdades cridas, que de certo modo apresentam genuinamente ao entendimento a essência divina e o colocam, por assim dizer, em sua esfera, dando-lhe uma participação na perfeição essencial de Deus. Donde não há proporção ou adequação natural ao entendimento humano, por elevado que seja; são verdades que pertencem a uma ordem que o ultrapassa por completo.

Deste plano absoluto e objetivo, o Doutor Místico passa ao plano subjetivo, isto é, ao de recepção dessas verdades, e, nelas, a expressão revelada da essência divina. Este trânsito do objetivo ao subjetivo na fé não é imediato, senão por seus passos contados:

"Daqui é que, para a alma, esta excessiva luz que lhe dá é treva obscura".

Esta frase podemos e devemos referir ainda ao plano objetivo, como se vê pelo contexto. Porém passa imediatamente ao plano subjetivo:

"Porque o mais priva e vence o menos, assim como a luz do sol priva quaisquer outras luzes, de modo que não pareçam luzes quando ela ilumina e vence nossa potência visual. De modo que antes nos cega e priva da vista do que lhe dá a visão, porquanto sua luz é muito desproporcional e excessiva à potência visual. Assim, a luz da fé, por seu grande excesso, oprime e vence a luz do entendimento; a qual só alcança por si mesma a ciência natural; embora tenha potência para o sobrenatural quando nosso Senhor a queira pôr em ato sobrenatural".

A noção subjetiva da fé como hábito obscuro vai crescendo luminosamente no texto. Seguindo o fio do discurso completo, é possível supor, com muita probabilidade de acerto, que se refere continuamente às verdades reveladas, que são como uma luz solar que deslumbra os olhos. Assim estas aparecem ao entendimento excessivamente luminosas, e, portanto, produzem nele trevas; o mesmo acontece à retina que olha fixamente para o sol. Ao fechar-se os olhos à luz natural, se abre à luz sobrenatural, não por sua própria potência visual - não proporcional e insuficiente -, mas pela força da luz da fé, luz sobrenatural que Deus deu ao entendimento. Este possui inata certa potência passiva, à qual os escolásticos chamam 'obediencial' em relação ao sobrenatural [33]. A potência cognitiva natural, em virtude dela, abre-se receptivamente a um novo dinamismo sobrenatural. Situa-se, por assim dizer, na ordem da ação sobrenatural (ponitur in actu supernaturali). Em outras palavras: dispõe-se sobrenaturalmente pela infusão divina e se torna capaz de receber a luz das verdades reveladas. E então, com a inserção de um elemento ao mesmo tempo objetivo (a verdade revelada) e subjetivo (a luz sobrenatural), a fé é gerada.

Esta é a gênese ou nascimento da fé no entendimento, que junta e identifica o elemento objetivo e o subjetivo, ambos expressos na fórmula unitária de "luz excessiva e desproporcional". E a fusão e conexão do duplo elemento expressa nela se apresenta imediatamente como uma invasão vitoriosa na potência natural cognitiva humana: "oprime e vence". Porque a luz 'subjetiva - objetiva' da fé vence a luz natural do entendimento, e vencendo-a faz com que não ilumine, que não intervenha com sua luz natural, que dê lugar à luz da fé, sempre 'excessiva' e sobrenatural.

Eis aqui, a nosso ver, o sentido dos textos de São João da Cruz sobre a luz da fé no entendimento, o modo e a palavras com que ilustra pela primeira vez a estupenda simbiose do sobrenatural com o natural para a consecução final da união. A explicação não está fora do caminho. Basta recordar qual é a proporção - ou, melhor, a desproporção - entre o natural e o sobrenatural, segundo o exposto em Subida II 8.

Em conclusão, o ensinamento do Doutor Místico nos apresenta a fé como uma luz que faz o entendimento "proporcional" às verdades divinamente reveladas, verdades que contêm a Divindade. Trata-se, pois, de uma luz infusa que não supõe nada no entendimento, salvo certa potência obediencial; esta coincide, em última instância, com sua luz natural; e surge, por assim dizer, uma contenda entre uma e outra; a luz infusa vence; e então o entendimento já possui a fé, e é capaz, com sua ajuda, de remontar-se ao divino.

Quanto à apresentação da batalha e da vitória, devemos observar que a luz natural do entendimento, segundo se insinua no subsolo de texto sanjoanista, parece que pretende, por suas próprias forças, chegar ao divino. Porém desfalece no intento. De fato não vai além do conhecimento natural: "à ciência natural". É então que a esta insuficiência nativa vem o auxilio da luz "excessiva", que vence, e, pelo mesmo excesso e por sua proporção sobrenatural às verdades divinas reveladas, lhe outorga capacidade para assumi-las e, de certa forma, penetra-las.

O quadro que o Doutor Místico nos apresenta da inserção da luz sobrenatural na luz natural do entendimento é realmente estupendo e convém não esquece-lo. Quiçá tenhamos necessidade de recorrer a ele mais tarde.

Em Subida II 9, segundo vimos na análise, explica-se de algum modo o mistério paralelo da luz e da trevas. Na fé ocorrem, simultaneamente, a luz - infusa, excessiva, não própria do entendimento naturalmente considerado - que penetra no divino, e, ao mesmo tempo, a obscuridade tenebrosa. Por que? Pois precisamente porque o divino não pode ser alcançada pela luz própria do entendimento; ou melhor, se exclui dele a capacidade de conhece-lo positivamente; e deste modo fica abaixo do conhecimento, da operação que se realiza na própria potência.

A fé é, portanto, conhecimento das realidades divinas, a que se chega com uma luz emprestada, já que a própria luz ficou excluída por falta de proporção. Sem dúvida, e por paradoxal que pareça, a fé aparece obscura no mesmo ato de conhecer. E isto falando psicologicamente, pois afirma-se, por um lado, que o entendimento alcança o objeto e, por outro, se corta a possibilidade de conhece-lo exaustivamente. O paradoxo consiste em afirmar que a fé é privação do entendimento em sua própria tendência natural a conhecer. E isto precisamente no supremo ato cognitivo.

Assim é que São João da Cruz nos apresenta a fé com uma coincidência paradoxal e uma conformidade interior com a potência cognitiva humana. Sob um aspecto que chamaremos psicológico. Porém para que esta primeira impressão , realmente surpreendente, nos descubra seu perfil autêntico é necessário submeter a análise posterior alguns detalhes.

Em primeiro lugar, o próprio sujeito, que no texto apareceu como vencido e ofuscado pela "luz excessiva". Já dissemos antes como e em que sentido fala o Doutor Místico do sujeito da fé, e esboçamos também sua natureza, seguindo o fio firme e contínuo da exposição sistemática sanjoanista. Isto era necessário, dissemos, pela conexão íntima de uma coisa com outra, isto é, da fé com o entendimento. Vimos que trata explicitamente do meio de união do entendimento com Deus, e por isso considera ambas as coisas juntas; teremos, pois, que segui-lo, já que não poderemos investigar bem uma, segundo ele, se perdermos de vista a outra.

Também sublinhamos sua afirmação sobre a absoluta insuficiência e incapacidade do entendimento para lograr por si só a união, isto é, para alcançar a Divindade. Os textos de Subida II 8,4-7 são terminantemente explícitos.

Pois bem, a potência cognitiva humana não age senão em conexão com os sentidos exteriores e interiores de que parte e pelos quais consegue só um conhecimento material, compreendendo de maneira clara sua essência. O contato do entendimento com este objeto proporcional a suas possibilidades é apresentado por São João da Cruz em Subida II 8,5 da seguinte maneira: o oficio do entendimento, dirá ali, consiste em "formar as inteligências e despoja-las do ferro das espécies e fantasias".

Descobrimos que a expressão "despoja-las", reflete, em linhas gerais, a doutrina escolástica sobre o trabalho de abstração que realiza o entendimento agente.

Igualmente, e de uma forma mais acabada, a reflete ao insistir na função do entendimento passivo; diz em Subida II 14,6:

"[...] a alma não pode agir nem receber senão por meio destas duas potências sensitivas e espirituais; porque, como dissemos, mediante as potências sensitivas ela pode discorrer, e buscar ativamente as noticias dos objetos, e mediante as potências espirituais pode gozar as noticias já recebidas, já sem o trabalho das potências".

Parece, além disso, que aqui se encarrega os sentidos de todo o trabalho de preparar o conhecimento do objeto, enquanto quase se silencia a função do entendimento agente. Sem dúvida, sua função consta do texto de Subida II 8,5. O que ocorre aqui é que o Doutor Místico está já em outra fase de sua doutrina - está tratando da passagem da meditação para a contemplação -, e por isso insiste na outra dimensão da teoria do conhecer e sob outro aspecto. O que reforça é "o gozar" da potência espiritual - especialmente do entendimento na contemplação -, a satisfação e a quietude da potência cognitiva uma vez que logra "a noticia" ou inteligência do objeto.

Podemos achar expressões semelhantes em Subida III 13,4, onde a "figura e imagem" se apresenta como matéria do conhecimento humano e, ao mesmo tempo, como

"a casca e acidente da substância e espirito que existe debaixo de tal aparência e acidente".

Sem dúvida, essa

"substância e espirito não se une com as potências da alma em verdadeira inteligência e amor senão quando já cessa a operação das potências".

Só assim se atinge a meta da operação, que consiste em

"receber na alma a substância entendida e amada daquelas formas".

Este último parece que não é outra coisa senão a essência da realidade entendida - se aventamos a questão da potência -, alcançada em conformidade com a natureza do sujeito e com a intenção identificada. Por isso fala de "substância entendida".

Porém, se aceitamos esta exegese do texto sanjoanista, surge então o grande problema: Como se há de interpretar o que o Doutor Místico ensina sobre a natureza do conhecimento humano?

A questão não está totalmente fora de nossa pesquisa, precisamente pelo importante papel que, segundo já indicamos, desempenha o sujeito no tema da união com Deus.

Em uma nota ao pé da página, examinaremos as soluções propostas pelos comentaristas [34].

Seja o que for a propósito desse problema particular, para nossa incumbência que consiste em averiguar a natureza íntima da fé segundo o pensamento de São João da Cruz, nos contentaremos com reafirmar a índole vital que o Doutor Místico vê no entendimento e como insere nesta vitalidade a união de fé com a Divindade. O Santo repete incansavelmente em vários lugares quais são suas naturezas limites e a exigência de uma proporção natural para atuar. Esta proporção está subjacente nas coisas criadas, e o entendimento tende naturalmente a apoderar-se delas conhecendo-as; uma vez que consegue seu intento, repousa; mais ainda, "goza". É o descanso e satisfação do entendimento possível. A obtenção serve também, sem dúvida alguma, segundo a doutrina do Santo, para "despojar" o entendimento - desta vez, o entendimento agente -, que utiliza a imagem captada pelos sentidos externos e retida pelos sentidos internos.

Todos estes são elementos escolásticos, úteis de maneira especial para distinguir bem a meditação e a contemplação. Na primeira põe em relevo o termo "trabalhar"; na segunda, o termo "gozar". Idêntica doutrina - palavras e idéias - reaparecerá no Cântico, na mesma linha com o que aqui estamos investigando.

De modo semelhante nos apresenta São João da Cruz, em geral, o 'entendimento - potência', dotado de uma natureza própria, atuando em conformidade com ela, dentro de seus limites, possuindo e manifestando uma dinâmica específica.

Pois bem, esta potência coincide em Subida II 3 com a luz sobrenatural infusa, que é "luz excessiva". Temos já a fé, isto é, colocou na potência natural uma virtude sobrenatural capaz de uni-la a Deus.

Em Subida II 6,6 o expressa com estas palavras:

"[...] a maneira pela qual as potências espirituais se despojem e se purifiquem de tudo o que não é Deus e se ponham na obscuridade destas três virtudes".

Parece, por conseguinte, que a sorte e a vida do entendimento estão intimamente ligadas à fé unitiva desde este momento e que dependerão profundamente do que a fé aporta.

Mas o que aporta a fé? Já vimos que aporta uma luz "excessiva", em virtude da qual se encontra com a Divindade nas verdades reveladas. Porém como isto ocorre no entendimento, tem por força que ater-se às conseqüências. Quais?

Em primeiro lugar, segundo já nos consta, o entendimento é incapaz de chegar à Divindade 'revelada' por si só. Em vista disto, o Doutor Místico argumenta que a luz intelectual abarca unicamente 'a ciência natural': "a qual se estende, de seu, à ciência natural". E o afirma com grande precisão, explicando-o um pouco mais abaixo com as mesmas premissas que examinamos antes, baseados em outros textos de Subida, a propósito da natureza do conhecimento intelectual humano:

O conhecimento natural começa nos sentidos, logo se elabora com as figuras e fantasmas - a imagem- dos objetos e termina, por último, na "noticia".

Pois bem, é impossível, segundo consta de todo processo do conhecer, chegar à "noticia" sem uma experiência sensível imediata; ou seja, sem os 'fantasmas' ou espécies ou imagens captadas pelos sentidos exteriores e elaboradas nos sentidos internos. Portanto - prossegue o Doutor Místico -, para obter uma "noticia" - ou seja, para que o entendimento se una ao objeto - não basta qualquer experiência sensível; é necessário uma experiência tal que os sentidos interiores possam elabora sua espécie ou imagem. Que tipo de imagem? O Santo responde com exemplos. Não bastaria que um som golpeasse o sentido externo - experiência sensível -, já que sem o sentido interior não pode converter em 'fantasma' ou imagem o externamente ouvido. Em outras palavras: é necessário referir, mediante associação, a locução percebida a outras coisas existentes no mundo sensível, e que delas se possa extrair, ao menos aproximadamente, uma imagem nos sentidos interiores. De outra forma, se faltarem os elementos desta associação, não será possível a formação da espécie ou imagem nos sentidos internos. A realidade percebida pelo ouvido se tornaria puro som, não assimilado e não reconstruível para o sentido interior, e, portanto, impenetrável para o entendimento agente e, por último, ininteligível:

"[...] somente restaria o nome deles, porque este pode perceber com o ouvido, mas a forma e figura não, porque nunca os viu".

Um exemplo clássico temos no cego que inutilmente tentasse reconstruir a imagem e a cor de uma coisa que só conhece pelos ouvidos.

No caso próprio da fé:

"Assim é a fé para com a alma, que nos diz coisas que nunca vimos nem entendemos em si nem em suas semelhanças, pois não as têm. E assim, não temos dela luz de ciência natural, pois a nenhum sentido é proporcional o que nos diz; porém o sabemos pelo ouvido, crendo o que nos ensina, sujeitando e cegando nossa luz natural. Porque, como diz São Paulo, 'fides ex auditu' (Rom 10,17). Como se dissesse: a fé não é ciência que entra por algum sentido, mas é somente consentimento da alma ao que entra pelo ouvido".

Refletindo sobre tudo isso, vemos imediatamente que as verdades reveladas anunciam algo à potência cognitiva; a seguir, a potência se põe em ação, segundo seus recursos, tratando de capta-las; porém isto lhe é impossível por faltar a esta potência meios proporcionais; o entendimento agente se vê, portanto, impedido de seu intento por essa falta de proporção ou semelhança entre sua dinâmica própria e o objeto. Uma vez mais reaparece o palpel fundamental da "semelhança"; e não qualquer semelhança, mas a estritamente "essencial", que é no que se baseia o entendimento para chegar a conhecer as coisas. Ao faltar a 'semelhança', os sentidos não podem se impressionar com a imagem de uma realidade que está fora de seu âmbito próprio. Para eles, a realidade é pura voz ou nome de algo desconhecido. Sem dúvida, o entendimento, que não pode alcançar nada com o apoio deficiente dos sentidos, se potencializa pela fé, e é alçado e atraído a conhecer a essência divina graças à luz infusa que recebe. Neste sentido se diz que "o vence e o oprime", porque se projeta e se une ao que pelas próprias forças não pôde trabalhar - "despojar" - nem gozar a missão cumprida. E, portanto, segundo a explicação de São João da Cruz, se aproxima das realidades sobrenaturais como que vazio das formas naturais e enriquecido com a "luz excessiva" da fé.

É assim que se deve entender o texto sanjoanista que diz: a fé não é ciência. Não usa aqui o termo 'ciência' no sentido escolástico, ou seja, como conhecimento certo e evidente obtido por meio de uma demonstração. O que é sublinhado no texto, antes de tudo, é a índole formal da fé, comparada sempre e contraposta, na obra de São João da Cruz, à visão, na qual o entendimento alcança a essência e possui subjetivamente de modo claro a Divindade, enquanto se coloca, como dissemos, "intencionalmente escondida". Por conseguinte, o uso do termo 'ciência' não se refere ao processo pelo qual se obtém, nem à evidência, que é o resultado desse processo, mas somente à consecução de uma nova forma por parte do entendimento. E assim, a expressão "a fé não é ciência", usada por São João da Cruz, não quer dizer que falha na demonstração 'evidente', mas que a 'divina' não foi totalmente conseguida pelo entendimento.

Este princípio do Santo corresponde exatamente ao que ensina sobre a disposição de quem busca intencionalmente a união com Deus, e que, se não o consegue, não é por falha do processo intencional, mas pela ausência do Amado. Recorde-se o comentário ao verso de Cântico

"Onde te escondeste?"

Em conclusão: com o termo "ciência" refere-se o Doutor Místico, ao menos na passagem que estamos analisando, à aquisição da forma do objeto, que implica o esforço do entendimento agente, e, finalmente, o "gozar" que se produz quando o entendimento possível descansa com o conhecimento encontrado. Então podemos falar já, segundo a terminologia de São João da Cruz, de "substância entendida".

Do exposto se vê claramente que o texto de Subida II 3,1-3 é, apesar de sua brevidade, sumamente denso e fertilíssimo para nosso tema. E também como devemos aplicar a máxima atenção para descobrir tudo o que há em suas entranhas. Talvez esteja aqui tudo o que ele pensa sobre a índole psicológica da fé e que não se atreve a explicitar sem antes apurar bem todos os detalhes ou matizes.

Tal é, a nosso leal parecer, a natureza do texto de São João da Cruz que estamos analisando; um texto muito orgânico, e por isso com muita coisa implícita, no que a doutrina, tomando a palavra com rigor, aponta todo o sistema sanjoanista, e que se fará mais patente ao descrever o caminho da união. Nenhum elemento do sistema falta. O que ocorre é que nem sempre se encontram todos reunidos em feixe em um texto determinado.

A explicação que São João da Cruz nos oferece em Subida II 3,2 sobre o modo de se verificar a conjunção da "luz excessiva" da fé com a dinâmica natural do entendimento é de extremo valor para nosso estudo. Antes de tudo convém observar a tendência natural do entendimento agente, indicada pelo Doutor Místico, à essência do objeto captado pelos sentidos; isto é, a tendência a penetra-lo em sua própria inteligibilidade; nessa inteligibilidade que unirá a si com identificação intencional, aquietando-se ou descansando nela quando o tiver conseguido. Pois bem, esta tendência deve igualmente se realizar, de algum modo, em relação às coisas reveladas. Porém, surge de imediato a dificuldade; mais ainda, a impossibilidade: as verdades reveladas não podem ser captadas pelos sentidos, que são os que têm a função de transmitir ao entendimento sua espécie ou imagem. Portanto, fica assim fechada a via normal do entendimento para sua função específica; encontra-se frente a um objeto que lhe é impossível penetrar, nem captar sua imagem ou espécie (a que os sentidos lhe transmitem), nem ver claramente sua essência, nem, em definitivo, descansar nela.

Eis que topamos novamente com o princípio da "semelhança essencial", que excluímos de qualquer criatura, por muito perfeita que seja, em relação à Divindade - a operação própria do entendimento se desenvolve no âmbito da criatura natural -; porém onde se fecha a porta ao entendimento, abre-a a graça e a fé, potencializando a criatura com a "semelhança essencial" que não possuía.

Retenhamos, para não sairmos do encalço do pensamento sanjoanista, a asserção geral: o entendimento sanjoanista busca naturalmente a essência do objeto. Este princípio é de máxima importância para compreender a noção de fé segundo no-la apresenta o Doutor Místico. Porque a tendência do entendimento à essência do objeto vale também quando se trata da verdade revelada. Neste caso, a tendência à essência do objeto termina, segundo dissemos, em "obscuridade". Observamos também a importância que São João da Cruz dá à "obscuridade" em sua idéia típica da fé. Já o sublinhamos ao analisar Subida II 9. Resta-nos agora a análise em profundidade das condições em que isto ocorre.

A tendência natural do entendimento à essência do objeto captado em imagem pelos sentidos não é apresentada aqui como algo isolado e solitário. Entra em jogo na dinâmica interna da "luz excessiva" da fé; dessa luz na qual, segundo Subida II 9,1, "se manifesta Deus à alma". A "luz excessiva" atrai o entendimento a seu domínio. São João da Cruz sublinha com traço robusto sua força: "vence e oprime a luz do entendimento". Trata-se, evidentemente, de um deslumbramento da luz natural do intelecto, que nesta circunstância vacila impotente ante um objeto desconhecido; diríamos que seus próprios faróis se eclipsam ante a "luz excessiva" da fé: "não parecem luzes quando ela ilumina". A luz natural é impotente para penetrar no objeto sobrenatural. E é substituída pela nova luz que se acende no entendimento: a fé. O que não se deve entender como se fizesse luzir o entendimento. De modo algum. São João da Cruz dirá melhor 'o cega'. O que a "luz excessiva" faz é que, efetivamente, o entendimento se adira ao objeto sobrenatural que lhe foi apresentado como revelado; que se una com esta realidade, com esta Essência, à qual tende naturalmente. Só que esta sua tendência natural - abandonado a suas próprias forças - deveria terminar em puro desejo, em pura inquietação, como o esforço do cego para ver a cor. E, não obstante, o entendimento se adere simultaneamente a essa Essência sem ter em si, da maneira costumeira, a forma expressa. E isto é realmente surpreendente. Porque observamos, seguindo as premissas que São João da Cruz nos oferece, que a erupção da "luz excessiva" sublima a tendência natural do entendimento até a essência do objeto e ao mesmo tempo se opõe a essa inclinação natural. Isto é o que para São João da Cruz significa "a fé [...] faz crer". Porém percebe-se claramente em que consiste essa tensão ou paradoxo que o Doutor Místico põe na dinâmica da fé: para ele, a fé une uma conjunção ou coesão íntima, orgânica e dinâmica do entendimento com a "luz excessiva".

Que deriva desta simbiose?

Antes de tudo, deriva a abundância de obscuridade, posta em relevo pelo Doutor Místico tão ostensivamente:

"para a alma, esta excessiva luz que lhe dá a fé é treva obscura".

Deveríamos interpretar isto como aceitação das verdades reveladas por parte do entendimento, enquanto lhe são oferecidas sob uma forma conceitual humana, isto é, enquanto se lhe apresentam em forma de dicção, "pelo ouvido"? Não, pois nenhum tipo de aceitação bastaria para explicar essa tendência natural do entendimento à essência do objeto apresentado, até o descobrimento, até a exploração - por assim dizer -, até a penetração dessa essência e, finalmente, até sua assimilação de forma inteligível.

No caso da fé, a tendência natural se realiza não só em virtude do entendimento, mas em virtude da "luz excessiva", que é luz divina, participada por ele; graças a ela chega à Essência. Mas por efeito da luz divina resulta precisamente no entendimento a obscuridade. O entendimento não logra, em sua tendência "efetiva", a posse da forma divina; permanece vazio. A fé não é "ciência"; é adesão à divina Essência, contato intelectual com a Divindade, porém sem chegar a seu término, sem descansar nele, sem "gozar" na "substância entendida".

Porém, por outro lado, essa obscuridade e trevas lhe são facultadas para compreender melhor a "luz excessiva" da fé. Essa luz, embora conservando todo seu vigor conatural em relação ao objeto revelado, não ilumina intrinsecamente o entendimento; leva-o, sim, além de sua própria índole natural, além de sua radical incapacidade para compreender a Verdade revelada; o eleva, não o ilumina; o eleva, porém deixando-o intrinsecamente em sua condição própria. Sua força, participada pelo entendimento na fé, aparece limitada em certo sentido, e o limite provém da índole nativa do mesmo entendimento: em virtude da "luz excessiva", chega-se pela fé às verdades divinas; porém chega a elas a seu modo, embora não por sua própria força. "A seu modo" quer dizer que não perde seu estilo próprio de atuar. Porque não foi transformado intrinsecamente. Portanto, conhece na luz divina e sob seu impulso, porém não conhece informado pela luz mesma (ipso lumine). Daí resulta a obscuridade de que padece.

Todos estes elementos estão entranhados uns com os outros de um modo inquebrantável. Por um lado, a obscuridade da fé demonstra que se dá nela certo contato com a Essência divina. Por outro, a mesma obscuridade, suposto já conseguido o contato com as verdades reveladas, nos manifesta a natureza e a medida da função da luz divina na fé, que nunca chega a uma transformação intrínseca, certamente participada, do entendimento, de modo que se faça capaz de assumir em si a forma divina para conhecer só com esta luz; sempre conserva seu modo natural por ela, influído por ela; porém esse conhecimento não se converte em luz total. Se assim fosse, já não teríamos fé, mas visão.

Deste modo, compreendemos por que diz que a fé é um "hábito obscuro". A análise nos levou a um raciocínio explicativo do texto de São João da Cruz. E nos permitiu justificar o paradoxo ou tensão existente dentro do hábito mesmo da fé, segundo a terminologia do Doutor Místico. A simbiose do divino e do humano é assim, tendo sempre em mente a distância e desproporção essenciais existentes entre um e outro, entre o incriado e o criado. E isto não só visto de uma perspectiva e de uma comparação objetiva, segundo notamos principalmente em Subida II 8,3, mas também, considerando a entranha mesmo da simbiose, a estrutura da virtude da fé, que é "semelhança essencial" em relação à Divindade e, ao mesmo tempo, algo psicológico, ou seja, um hábito do entendimento, como apontamos reiteradamente.

Restam ainda alguns elementos necessários de análise no importante texto de Subida II 3. Queremos, pois, deter-nos um pouco fazendo algumas observações úteis para um estudo mais cabal do mesmo antes de prosseguir explorando o pensamento sanjoanista.