|
Convém observar em primeiro lugar que estas duas coisas, luz e
trevas, estão sempre tão intimamente conexas na fé, que o que se
diga de uma deverá ser dito , correlativamente, da outra. Nunca a
fé deixará de ser para nós luz em trevas, luz verdadeira e íntima
da Divindade comunicada nas trevas que a acompanham.
Porém antes de passar adiante devemos extrair de Subida II 9
alguns dados que serão úteis depois.
Nunca poderemos perder de vista o conceito fundamental de
"semelhança". Já vimos como e em que sentido o Doutor Místico
aplica este termo à fé e como o tem em conta ao comparar o ato
próprio da fé com a visão da Pátria.
Em continuação insiste em faze-lo compreender ao leitor,
explicando:
|
"Porque assim como Deus é infinito, assim a fé no-lo
propõe infinito; e assim como Deus é treva para nosso
entendimento, assim ela também cega e deslumbra nosso entendimento".
|
|
É esta a explicação imediata de por que a "semelhança" é
necessária para a fé e para a visão beatífica. Captadas com
atenção estas idéias, não só nos situarão frente ao porque, mas
também frente ao como. E assim teremos o terreno aberto para a
pesquisa atual.
Afirma-se que a fé causa "semelhança" com Deus por dois motivos:
primeiramente, porque origina a 'proporção'; em segundo lugar,
pelo estado que produz.
A primeira razão é objetiva, já que a fé une o entendimento a
Deus, propondo-lhe como verdade o que subsiste realmente em Deus.
A segunda razão é típica da concepção sanjoanista da fé, pois o
Doutor Místico ensina que a fé dá ao entendimento a 'semelhança'
com Deus, porque assim como Deus em si mesmo, em seu íntimo ser,
é trevas para o entendimento, assim também a fé cega e deslumbra o
entendimento humano. O que significa que a fé une a Deus ao propor
as verdades reveladas de Deus, que dizem o que Deus é em si e
ademais faz com que o entendimento o conheça de um modo
'experimental'. Com este termo - 'experiência' - se caracteriza
o conhecimento de fé, porque dá ao entendimento não só um conhecer
íntimo e subjetivo, que implica a apresentação do objeto, mas
também, e mais propriamente, 'sentir' o que Deus é. Não se
trata, pois, de um abuso ou exagero verbal.
Igualmente é digna de ser sublinhada a segunda razão aduzida para
provar que a fé é 'semelhança' da Divindade para o entendimento.
Notemos, sobretudo, que se o fato de propor a verdade revelada pode
reduzir a 'semelhança' da fé, de algum modo, a uma objetivação,
também será certo que o segundo motivo de expressar a proporção da
Divindade ao entendimento indica uma "semelhança" da fé em sentido
subjetivo: Deus comunicado ao entendimento pela fé e recebido e
experimentado em algum estado psicológico desta potência.
O 'estado psicológico' ou espécie psicológica de entendimento
crente - mais certo seria dizer 'espécie psicológica' de
entendimento, identificada com a fé - nos leva a refletir sobre o
hábito de fé. Que é do que trata Subida II 3.
Vamos, pois, verificar se este "cega e deslumbra nosso
entendimento", que parece um modo de falar mais literário e poético
que estrito, indica realmente a "espécie psicológica" de
entendimento que é a fé. Lemos:
|
"Dizem os teólogos que a fé é um hábito da alma certo e obscuro".
|
|
É um hábito (habitus). Pela primeira vez a reduz expressamente a
essa categoria escolástica. Mais ainda: "dizem os teólogos"
mostra que o Doutor Místico se refere à sentença comum da teologia
escolástica, segundo a qual a fé é um hábito.
Certamente, já havíamos visto de passagem em Subida II 5,2 a
distinção 'quanto ao hábito - quanto ao ato'. E podemos induzir
agora: o hábito de fé dá à potência que o tem certa perfeição
interior ao ato do ponto de vista do modo de atuar. Sabemos por
Subida II 5,2 que a união habitual da substância e das
potências com Deus se contrapõe à união atual; do mesmo modo,
atendo-nos à letra do texto, segue-se que a união atual é mais
perfeita, já que acrescenta uma ulterior perfeição à potência
sobre a que lhe dava a união habitual. A perfeição da potência
ordenada ao ato se toma de modo a intervir na ação. De onde o ato
constitui uma perfeição definitiva na linha da ação, e, por
conseguinte, também uma perfeição definitiva no modo de unir a
Deus. Pelo contrário, o hábito expressa uma perfeição em um
nível inferior, mais distante da definitiva e última, mais latente;
sem dúvida, da mesma ordem.
Seguramente, este sentido de 'hábitus' em relação ao 'acto' se
acha na obra do Doutor Místico. O termo e seu sentido provêm, sem
dúvida, da filosofia escolástica, na qual 'habitus' retém o ser
conceitualmente certa perfeição da potência, embora não apareçam,
ao menos de modo expresso, as palavras da definição especulativa:
'habitus' é "uma qualidade difícil de arrancar" (qualitas
difficile mobilis).
E, segundo os limites fixados até aqui, devemos analisar o tema
proposto.
Dizer, pois que a fé é um 'habitus' significa que é uma
perfeição do entendimento vinculada a determinado modo de ação e
ordenada ao último nessa ordem; o último em linha reta é o ato.
Isto é o que "dizem os teólogos", a cujas especulações o Doutor
Místico nos remete, ou, pelo menos, isto é o que ele supõe,
afirma e ensina, em completa harmonia com eles, embora o específico
da sua doutrina provenha de outras fontes e vá a outras metas.
A fé, portanto, é um hábito certo e obscuro. São João da
Cruz nos coloca imediatamente frente a esta formidável afirmação,
explicando-nos a seguir por que este hábito é obscuro.
A razão fundamental aparece na superfície extremamente simples:
"porque faz crer verdades reveladas pelo mesmo Deus". Sem dúvida,
tão simples fórmula, facilmente acessível aos destinatários do
tratado - as almas contemplativas, do Carmelo e de outros estados,
que nem sempre conhecem teologia -, esconde um sentido profundo: as
verdades divinamente reveladas estão fora do alcance da luz natural e
ultrapassam absolutamente a capacidade intelectual do homem:
|
"as quais estão além de toda luz natural e excedem a todo entendimento
humano, sem nenhuma proporção".
|
|
Neste texto sentimos novamente o ambiente primordial da "semelhança
essencial" e da "proporção de semelhança". E fica patente que a
íntima razão da "proporção de semelhança" enquadra a fé por seu
valor objetivo: as verdades reveladas que fazem crer ao entendimento
estão acima dele sem proporção alguma. São verdades cridas, que
de certo modo apresentam genuinamente ao entendimento a essência divina
e o colocam, por assim dizer, em sua esfera, dando-lhe uma
participação na perfeição essencial de Deus. Donde não há
proporção ou adequação natural ao entendimento humano, por elevado
que seja; são verdades que pertencem a uma ordem que o ultrapassa por
completo.
Deste plano absoluto e objetivo, o Doutor Místico passa ao plano
subjetivo, isto é, ao de recepção dessas verdades, e, nelas, a
expressão revelada da essência divina. Este trânsito do objetivo ao
subjetivo na fé não é imediato, senão por seus passos contados:
|
"Daqui é que, para a alma, esta excessiva luz que lhe dá é treva obscura".
|
|
Esta frase podemos e devemos referir ainda ao plano objetivo, como se
vê pelo contexto. Porém passa imediatamente ao plano subjetivo:
|
"Porque o mais priva e vence o menos, assim como a luz do sol priva
quaisquer outras luzes, de modo que não pareçam luzes quando ela
ilumina e vence nossa potência visual. De modo que antes nos cega e
priva da vista do que lhe dá a visão, porquanto sua luz é muito
desproporcional e excessiva à potência visual. Assim, a luz da
fé, por seu grande excesso, oprime e vence a luz do entendimento; a
qual só alcança por si mesma a ciência natural; embora tenha
potência para o sobrenatural quando nosso Senhor a queira pôr em ato sobrenatural".
|
|
A noção subjetiva da fé como hábito obscuro vai crescendo
luminosamente no texto. Seguindo o fio do discurso completo, é
possível supor, com muita probabilidade de acerto, que se refere
continuamente às verdades reveladas, que são como uma luz solar que
deslumbra os olhos. Assim estas aparecem ao entendimento
excessivamente luminosas, e, portanto, produzem nele trevas; o mesmo
acontece à retina que olha fixamente para o sol. Ao fechar-se os
olhos à luz natural, se abre à luz sobrenatural, não por sua
própria potência visual - não proporcional e insuficiente -, mas
pela força da luz da fé, luz sobrenatural que Deus deu ao
entendimento. Este possui inata certa potência passiva, à qual os
escolásticos chamam 'obediencial' em relação ao sobrenatural
[33]. A potência cognitiva natural, em virtude dela, abre-se
receptivamente a um novo dinamismo sobrenatural. Situa-se, por assim
dizer, na ordem da ação sobrenatural (ponitur in actu
supernaturali). Em outras palavras: dispõe-se sobrenaturalmente
pela infusão divina e se torna capaz de receber a luz das verdades
reveladas. E então, com a inserção de um elemento ao mesmo tempo
objetivo (a verdade revelada) e subjetivo (a luz sobrenatural), a
fé é gerada.
Esta é a gênese ou nascimento da fé no entendimento, que junta e
identifica o elemento objetivo e o subjetivo, ambos expressos na
fórmula unitária de "luz excessiva e desproporcional". E a fusão
e conexão do duplo elemento expressa nela se apresenta imediatamente
como uma invasão vitoriosa na potência natural cognitiva humana:
"oprime e vence". Porque a luz 'subjetiva - objetiva' da fé
vence a luz natural do entendimento, e vencendo-a faz com que não
ilumine, que não intervenha com sua luz natural, que dê lugar à luz
da fé, sempre 'excessiva' e sobrenatural.
Eis aqui, a nosso ver, o sentido dos textos de São João da Cruz
sobre a luz da fé no entendimento, o modo e a palavras com que ilustra
pela primeira vez a estupenda simbiose do sobrenatural com o natural
para a consecução final da união. A explicação não está fora do
caminho. Basta recordar qual é a proporção - ou, melhor, a
desproporção - entre o natural e o sobrenatural, segundo o exposto
em Subida II 8.
Em conclusão, o ensinamento do Doutor Místico nos apresenta a fé
como uma luz que faz o entendimento "proporcional" às verdades
divinamente reveladas, verdades que contêm a Divindade. Trata-se,
pois, de uma luz infusa que não supõe nada no entendimento, salvo
certa potência obediencial; esta coincide, em última instância,
com sua luz natural; e surge, por assim dizer, uma contenda entre uma
e outra; a luz infusa vence; e então o entendimento já possui a
fé, e é capaz, com sua ajuda, de remontar-se ao divino.
Quanto à apresentação da batalha e da vitória, devemos observar
que a luz natural do entendimento, segundo se insinua no subsolo de
texto sanjoanista, parece que pretende, por suas próprias forças,
chegar ao divino. Porém desfalece no intento. De fato não vai
além do conhecimento natural: "à ciência natural". É então que
a esta insuficiência nativa vem o auxilio da luz "excessiva", que
vence, e, pelo mesmo excesso e por sua proporção sobrenatural às
verdades divinas reveladas, lhe outorga capacidade para assumi-las e,
de certa forma, penetra-las.
O quadro que o Doutor Místico nos apresenta da inserção da luz
sobrenatural na luz natural do entendimento é realmente estupendo e
convém não esquece-lo. Quiçá tenhamos necessidade de recorrer a
ele mais tarde.
Em Subida II 9, segundo vimos na análise, explica-se de algum
modo o mistério paralelo da luz e da trevas. Na fé ocorrem,
simultaneamente, a luz - infusa, excessiva, não própria do
entendimento naturalmente considerado - que penetra no divino, e, ao
mesmo tempo, a obscuridade tenebrosa. Por que? Pois precisamente
porque o divino não pode ser alcançada pela luz própria do
entendimento; ou melhor, se exclui dele a capacidade de conhece-lo
positivamente; e deste modo fica abaixo do conhecimento, da operação
que se realiza na própria potência.
A fé é, portanto, conhecimento das realidades divinas, a que se
chega com uma luz emprestada, já que a própria luz ficou excluída
por falta de proporção. Sem dúvida, e por paradoxal que pareça,
a fé aparece obscura no mesmo ato de conhecer. E isto falando
psicologicamente, pois afirma-se, por um lado, que o entendimento
alcança o objeto e, por outro, se corta a possibilidade de
conhece-lo exaustivamente. O paradoxo consiste em afirmar que a fé
é privação do entendimento em sua própria tendência natural a
conhecer. E isto precisamente no supremo ato cognitivo.
Assim é que São João da Cruz nos apresenta a fé com uma
coincidência paradoxal e uma conformidade interior com a potência
cognitiva humana. Sob um aspecto que chamaremos psicológico. Porém
para que esta primeira impressão , realmente surpreendente, nos
descubra seu perfil autêntico é necessário submeter a análise
posterior alguns detalhes.
Em primeiro lugar, o próprio sujeito, que no texto apareceu como
vencido e ofuscado pela "luz excessiva". Já dissemos antes como e
em que sentido fala o Doutor Místico do sujeito da fé, e esboçamos
também sua natureza, seguindo o fio firme e contínuo da exposição
sistemática sanjoanista. Isto era necessário, dissemos, pela
conexão íntima de uma coisa com outra, isto é, da fé com o
entendimento. Vimos que trata explicitamente do meio de união do
entendimento com Deus, e por isso considera ambas as coisas juntas;
teremos, pois, que segui-lo, já que não poderemos investigar bem
uma, segundo ele, se perdermos de vista a outra.
Também sublinhamos sua afirmação sobre a absoluta insuficiência e
incapacidade do entendimento para lograr por si só a união, isto é,
para alcançar a Divindade. Os textos de Subida II 8,4-7 são
terminantemente explícitos.
Pois bem, a potência cognitiva humana não age senão em conexão com
os sentidos exteriores e interiores de que parte e pelos quais consegue
só um conhecimento material, compreendendo de maneira clara sua
essência. O contato do entendimento com este objeto proporcional a
suas possibilidades é apresentado por São João da Cruz em Subida
II 8,5 da seguinte maneira: o oficio do entendimento, dirá ali,
consiste em "formar as inteligências e despoja-las do ferro das
espécies e fantasias".
Descobrimos que a expressão "despoja-las", reflete, em linhas
gerais, a doutrina escolástica sobre o trabalho de abstração que
realiza o entendimento agente.
Igualmente, e de uma forma mais acabada, a reflete ao insistir na
função do entendimento passivo; diz em Subida II 14,6:
|
"[...] a alma não pode agir nem receber senão por meio destas
duas potências sensitivas e espirituais; porque, como dissemos,
mediante as potências sensitivas ela pode discorrer, e buscar
ativamente as noticias dos objetos, e mediante as potências
espirituais pode gozar as noticias já recebidas, já sem o trabalho
das potências".
|
|
Parece, além disso, que aqui se encarrega os sentidos de todo o
trabalho de preparar o conhecimento do objeto, enquanto quase se
silencia a função do entendimento agente. Sem dúvida, sua função
consta do texto de Subida II 8,5. O que ocorre aqui é que o
Doutor Místico está já em outra fase de sua doutrina - está
tratando da passagem da meditação para a contemplação -, e por
isso insiste na outra dimensão da teoria do conhecer e sob outro
aspecto. O que reforça é "o gozar" da potência espiritual -
especialmente do entendimento na contemplação -, a satisfação e a
quietude da potência cognitiva uma vez que logra "a noticia" ou
inteligência do objeto.
Podemos achar expressões semelhantes em Subida III 13,4, onde
a "figura e imagem" se apresenta como matéria do conhecimento humano
e, ao mesmo tempo, como
|
"a casca e acidente da substância e espirito
que existe debaixo de tal aparência e acidente".
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|
Sem dúvida, essa
|
"substância e espirito não se une com as potências da alma em
verdadeira inteligência e amor senão quando já cessa a operação das
potências".
|
|
Só assim se atinge a meta da operação, que consiste
em
|
"receber na alma a substância entendida e amada daquelas formas".
|
|
Este último parece que não é outra coisa senão a essência da
realidade entendida - se aventamos a questão da potência -,
alcançada em conformidade com a natureza do sujeito e com a intenção
identificada. Por isso fala de "substância entendida".
Porém, se aceitamos esta exegese do texto sanjoanista, surge então
o grande problema: Como se há de interpretar o que o Doutor
Místico ensina sobre a natureza do conhecimento humano?
A questão não está totalmente fora de nossa pesquisa, precisamente
pelo importante papel que, segundo já indicamos, desempenha o sujeito
no tema da união com Deus.
Em uma nota ao pé da página, examinaremos as soluções propostas
pelos comentaristas [34].
Seja o que for a propósito desse problema particular, para nossa
incumbência que consiste em averiguar a natureza íntima da fé segundo
o pensamento de São João da Cruz, nos contentaremos com reafirmar
a índole vital que o Doutor Místico vê no entendimento e como
insere nesta vitalidade a união de fé com a Divindade. O Santo
repete incansavelmente em vários lugares quais são suas naturezas
limites e a exigência de uma proporção natural para atuar. Esta
proporção está subjacente nas coisas criadas, e o entendimento tende
naturalmente a apoderar-se delas conhecendo-as; uma vez que consegue
seu intento, repousa; mais ainda, "goza". É o descanso e
satisfação do entendimento possível. A obtenção serve também,
sem dúvida alguma, segundo a doutrina do Santo, para "despojar" o
entendimento - desta vez, o entendimento agente -, que utiliza a
imagem captada pelos sentidos externos e retida pelos sentidos
internos.
Todos estes são elementos escolásticos, úteis de maneira especial
para distinguir bem a meditação e a contemplação. Na primeira põe
em relevo o termo "trabalhar"; na segunda, o termo "gozar".
Idêntica doutrina - palavras e idéias - reaparecerá no Cântico,
na mesma linha com o que aqui estamos investigando.
De modo semelhante nos apresenta São João da Cruz, em geral, o
'entendimento - potência', dotado de uma natureza própria,
atuando em conformidade com ela, dentro de seus limites, possuindo e
manifestando uma dinâmica específica.
Pois bem, esta potência coincide em Subida II 3 com a luz
sobrenatural infusa, que é "luz excessiva". Temos já a fé, isto
é, colocou na potência natural uma virtude sobrenatural capaz de
uni-la a Deus.
Em Subida II 6,6 o expressa com estas palavras:
|
"[...] a maneira pela qual as potências espirituais se despojem e
se purifiquem de tudo o que não é Deus e se ponham na obscuridade
destas três virtudes".
|
|
Parece, por conseguinte, que a sorte e a vida do entendimento estão
intimamente ligadas à fé unitiva desde este momento e que dependerão
profundamente do que a fé aporta.
Mas o que aporta a fé? Já vimos que aporta uma luz "excessiva",
em virtude da qual se encontra com a Divindade nas verdades reveladas.
Porém como isto ocorre no entendimento, tem por força que ater-se
às conseqüências. Quais?
Em primeiro lugar, segundo já nos consta, o entendimento é incapaz
de chegar à Divindade 'revelada' por si só. Em vista disto, o
Doutor Místico argumenta que a luz intelectual abarca unicamente 'a
ciência natural': "a qual se estende, de seu, à ciência
natural". E o afirma com grande precisão, explicando-o um pouco
mais abaixo com as mesmas premissas que examinamos antes, baseados em
outros textos de Subida, a propósito da natureza do conhecimento
intelectual humano:
O conhecimento natural começa nos sentidos, logo se elabora com as
figuras e fantasmas - a imagem- dos objetos e termina, por último,
na "noticia".
Pois bem, é impossível, segundo consta de todo processo do
conhecer, chegar à "noticia" sem uma experiência sensível
imediata; ou seja, sem os 'fantasmas' ou espécies ou imagens
captadas pelos sentidos exteriores e elaboradas nos sentidos internos.
Portanto - prossegue o Doutor Místico -, para obter uma
"noticia" - ou seja, para que o entendimento se una ao objeto -
não basta qualquer experiência sensível; é necessário uma
experiência tal que os sentidos interiores possam elabora sua espécie
ou imagem. Que tipo de imagem? O Santo responde com exemplos.
Não bastaria que um som golpeasse o sentido externo - experiência
sensível -, já que sem o sentido interior não pode converter em
'fantasma' ou imagem o externamente ouvido. Em outras palavras: é
necessário referir, mediante associação, a locução percebida a
outras coisas existentes no mundo sensível, e que delas se possa
extrair, ao menos aproximadamente, uma imagem nos sentidos
interiores. De outra forma, se faltarem os elementos desta
associação, não será possível a formação da espécie ou imagem
nos sentidos internos. A realidade percebida pelo ouvido se tornaria
puro som, não assimilado e não reconstruível para o sentido
interior, e, portanto, impenetrável para o entendimento agente e,
por último, ininteligível:
|
"[...] somente restaria o nome deles, porque este pode perceber
com o ouvido, mas a forma e figura não, porque nunca os viu".
|
|
Um exemplo clássico temos no cego que inutilmente tentasse reconstruir
a imagem e a cor de uma coisa que só conhece pelos ouvidos.
No caso próprio da fé:
|
"Assim é a fé para com a alma, que nos diz coisas que nunca vimos
nem entendemos em si nem em suas semelhanças, pois não as têm. E
assim, não temos dela luz de ciência natural, pois a nenhum sentido
é proporcional o que nos diz; porém o sabemos pelo ouvido, crendo o
que nos ensina, sujeitando e cegando nossa luz natural. Porque, como
diz São Paulo, 'fides ex auditu' (Rom 10,17). Como se
dissesse: a fé não é ciência que entra por algum sentido, mas é
somente consentimento da alma ao que entra pelo ouvido".
|
|
Refletindo sobre tudo isso, vemos imediatamente que as verdades
reveladas anunciam algo à potência cognitiva; a seguir, a potência
se põe em ação, segundo seus recursos, tratando de capta-las;
porém isto lhe é impossível por faltar a esta potência meios
proporcionais; o entendimento agente se vê, portanto, impedido de
seu intento por essa falta de proporção ou semelhança entre sua
dinâmica própria e o objeto. Uma vez mais reaparece o palpel
fundamental da "semelhança"; e não qualquer semelhança, mas a
estritamente "essencial", que é no que se baseia o entendimento para
chegar a conhecer as coisas. Ao faltar a 'semelhança', os sentidos
não podem se impressionar com a imagem de uma realidade que está fora
de seu âmbito próprio. Para eles, a realidade é pura voz ou nome
de algo desconhecido. Sem dúvida, o entendimento, que não pode
alcançar nada com o apoio deficiente dos sentidos, se potencializa
pela fé, e é alçado e atraído a conhecer a essência divina graças
à luz infusa que recebe. Neste sentido se diz que "o vence e o
oprime", porque se projeta e se une ao que pelas próprias forças
não pôde trabalhar - "despojar" - nem gozar a missão cumprida.
E, portanto, segundo a explicação de São João da Cruz, se
aproxima das realidades sobrenaturais como que vazio das formas naturais
e enriquecido com a "luz excessiva" da fé.
É assim que se deve entender o texto sanjoanista que diz: a fé não
é ciência. Não usa aqui o termo 'ciência' no sentido
escolástico, ou seja, como conhecimento certo e evidente obtido por
meio de uma demonstração. O que é sublinhado no texto, antes de
tudo, é a índole formal da fé, comparada sempre e contraposta, na
obra de São João da Cruz, à visão, na qual o entendimento
alcança a essência e possui subjetivamente de modo claro a
Divindade, enquanto se coloca, como dissemos, "intencionalmente
escondida". Por conseguinte, o uso do termo 'ciência' não se
refere ao processo pelo qual se obtém, nem à evidência, que é o
resultado desse processo, mas somente à consecução de uma nova forma
por parte do entendimento. E assim, a expressão "a fé não é
ciência", usada por São João da Cruz, não quer dizer que falha
na demonstração 'evidente', mas que a 'divina' não foi
totalmente conseguida pelo entendimento.
Este princípio do Santo corresponde exatamente ao que ensina sobre a
disposição de quem busca intencionalmente a união com Deus, e que,
se não o consegue, não é por falha do processo intencional, mas
pela ausência do Amado. Recorde-se o comentário ao verso de Cântico
Em conclusão: com o termo "ciência" refere-se o Doutor
Místico, ao menos na passagem que estamos analisando, à aquisição
da forma do objeto, que implica o esforço do entendimento agente, e,
finalmente, o "gozar" que se produz quando o entendimento possível
descansa com o conhecimento encontrado. Então podemos falar já,
segundo a terminologia de São João da Cruz, de "substância
entendida".
Do exposto se vê claramente que o texto de Subida II 3,1-3
é, apesar de sua brevidade, sumamente denso e fertilíssimo para
nosso tema. E também como devemos aplicar a máxima atenção para
descobrir tudo o que há em suas entranhas. Talvez esteja aqui tudo o
que ele pensa sobre a índole psicológica da fé e que não se atreve a
explicitar sem antes apurar bem todos os detalhes ou matizes.
Tal é, a nosso leal parecer, a natureza do texto de São João da
Cruz que estamos analisando; um texto muito orgânico, e por isso com
muita coisa implícita, no que a doutrina, tomando a palavra com
rigor, aponta todo o sistema sanjoanista, e que se fará mais patente
ao descrever o caminho da união. Nenhum elemento do sistema falta.
O que ocorre é que nem sempre se encontram todos reunidos em feixe em
um texto determinado.
A explicação que São João da Cruz nos oferece em Subida II
3,2 sobre o modo de se verificar a conjunção da "luz excessiva"
da fé com a dinâmica natural do entendimento é de extremo valor para
nosso estudo. Antes de tudo convém observar a tendência natural do
entendimento agente, indicada pelo Doutor Místico, à essência do
objeto captado pelos sentidos; isto é, a tendência a penetra-lo em
sua própria inteligibilidade; nessa inteligibilidade que unirá a si
com identificação intencional, aquietando-se ou descansando nela
quando o tiver conseguido. Pois bem, esta tendência deve igualmente
se realizar, de algum modo, em relação às coisas reveladas.
Porém, surge de imediato a dificuldade; mais ainda, a
impossibilidade: as verdades reveladas não podem ser captadas pelos
sentidos, que são os que têm a função de transmitir ao entendimento
sua espécie ou imagem. Portanto, fica assim fechada a via normal do
entendimento para sua função específica; encontra-se frente a um
objeto que lhe é impossível penetrar, nem captar sua imagem ou
espécie (a que os sentidos lhe transmitem), nem ver claramente sua
essência, nem, em definitivo, descansar nela.
Eis que topamos novamente com o princípio da "semelhança
essencial", que excluímos de qualquer criatura, por muito perfeita
que seja, em relação à Divindade - a operação própria do
entendimento se desenvolve no âmbito da criatura natural -; porém
onde se fecha a porta ao entendimento, abre-a a graça e a fé,
potencializando a criatura com a "semelhança essencial" que não
possuía.
Retenhamos, para não sairmos do encalço do pensamento sanjoanista,
a asserção geral: o entendimento sanjoanista busca naturalmente a
essência do objeto. Este princípio é de máxima importância para
compreender a noção de fé segundo no-la apresenta o Doutor
Místico. Porque a tendência do entendimento à essência do objeto
vale também quando se trata da verdade revelada. Neste caso, a
tendência à essência do objeto termina, segundo dissemos, em
"obscuridade". Observamos também a importância que São João da
Cruz dá à "obscuridade" em sua idéia típica da fé. Já o
sublinhamos ao analisar Subida II 9. Resta-nos agora a análise
em profundidade das condições em que isto ocorre.
A tendência natural do entendimento à essência do objeto captado em
imagem pelos sentidos não é apresentada aqui como algo isolado e
solitário. Entra em jogo na dinâmica interna da "luz excessiva" da
fé; dessa luz na qual, segundo Subida II 9,1, "se manifesta
Deus à alma". A "luz excessiva" atrai o entendimento a seu
domínio. São João da Cruz sublinha com traço robusto sua
força: "vence e oprime a luz do entendimento". Trata-se,
evidentemente, de um deslumbramento da luz natural do intelecto, que
nesta circunstância vacila impotente ante um objeto desconhecido;
diríamos que seus próprios faróis se eclipsam ante a "luz
excessiva" da fé: "não parecem luzes quando ela ilumina". A luz
natural é impotente para penetrar no objeto sobrenatural. E é
substituída pela nova luz que se acende no entendimento: a fé. O
que não se deve entender como se fizesse luzir o entendimento. De
modo algum. São João da Cruz dirá melhor 'o cega'. O que a
"luz excessiva" faz é que, efetivamente, o entendimento se adira ao
objeto sobrenatural que lhe foi apresentado como revelado; que se una
com esta realidade, com esta Essência, à qual tende naturalmente.
Só que esta sua tendência natural - abandonado a suas próprias
forças - deveria terminar em puro desejo, em pura inquietação,
como o esforço do cego para ver a cor. E, não obstante, o
entendimento se adere simultaneamente a essa Essência sem ter em si,
da maneira costumeira, a forma expressa. E isto é realmente
surpreendente. Porque observamos, seguindo as premissas que São
João da Cruz nos oferece, que a erupção da "luz excessiva"
sublima a tendência natural do entendimento até a essência do objeto
e ao mesmo tempo se opõe a essa inclinação natural. Isto é o que
para São João da Cruz significa "a fé [...] faz crer".
Porém percebe-se claramente em que consiste essa tensão ou paradoxo
que o Doutor Místico põe na dinâmica da fé: para ele, a fé une
uma conjunção ou coesão íntima, orgânica e dinâmica do
entendimento com a "luz excessiva".
Que deriva desta simbiose?
Antes de tudo, deriva a abundância de obscuridade, posta em relevo
pelo Doutor Místico tão ostensivamente:
|
"para a alma, esta excessiva luz que lhe dá a fé é treva obscura".
|
|
Deveríamos interpretar isto como aceitação das verdades reveladas
por parte do entendimento, enquanto lhe são oferecidas sob uma forma
conceitual humana, isto é, enquanto se lhe apresentam em forma de
dicção, "pelo ouvido"? Não, pois nenhum tipo de aceitação
bastaria para explicar essa tendência natural do entendimento à
essência do objeto apresentado, até o descobrimento, até a
exploração - por assim dizer -, até a penetração dessa essência
e, finalmente, até sua assimilação de forma inteligível.
No caso da fé, a tendência natural se realiza não só em virtude do
entendimento, mas em virtude da "luz excessiva", que é luz divina,
participada por ele; graças a ela chega à Essência. Mas por
efeito da luz divina resulta precisamente no entendimento a
obscuridade. O entendimento não logra, em sua tendência
"efetiva", a posse da forma divina; permanece vazio. A fé não é
"ciência"; é adesão à divina Essência, contato intelectual com
a Divindade, porém sem chegar a seu término, sem descansar nele,
sem "gozar" na "substância entendida".
Porém, por outro lado, essa obscuridade e trevas lhe são facultadas
para compreender melhor a "luz excessiva" da fé. Essa luz, embora
conservando todo seu vigor conatural em relação ao objeto revelado,
não ilumina intrinsecamente o entendimento; leva-o, sim, além de
sua própria índole natural, além de sua radical incapacidade para
compreender a Verdade revelada; o eleva, não o ilumina; o eleva,
porém deixando-o intrinsecamente em sua condição própria. Sua
força, participada pelo entendimento na fé, aparece limitada em
certo sentido, e o limite provém da índole nativa do mesmo
entendimento: em virtude da "luz excessiva", chega-se pela fé às
verdades divinas; porém chega a elas a seu modo, embora não por sua
própria força. "A seu modo" quer dizer que não perde seu estilo
próprio de atuar. Porque não foi transformado intrinsecamente.
Portanto, conhece na luz divina e sob seu impulso, porém não
conhece informado pela luz mesma (ipso lumine). Daí resulta a
obscuridade de que padece.
Todos estes elementos estão entranhados uns com os outros de um modo
inquebrantável. Por um lado, a obscuridade da fé demonstra que se
dá nela certo contato com a Essência divina. Por outro, a mesma
obscuridade, suposto já conseguido o contato com as verdades
reveladas, nos manifesta a natureza e a medida da função da luz
divina na fé, que nunca chega a uma transformação intrínseca,
certamente participada, do entendimento, de modo que se faça capaz de
assumir em si a forma divina para conhecer só com esta luz; sempre
conserva seu modo natural por ela, influído por ela; porém esse
conhecimento não se converte em luz total. Se assim fosse, já não
teríamos fé, mas visão.
Deste modo, compreendemos por que diz que a fé é um "hábito
obscuro". A análise nos levou a um raciocínio explicativo do texto
de São João da Cruz. E nos permitiu justificar o paradoxo ou
tensão existente dentro do hábito mesmo da fé, segundo a
terminologia do Doutor Místico. A simbiose do divino e do humano é
assim, tendo sempre em mente a distância e desproporção essenciais
existentes entre um e outro, entre o incriado e o criado. E isto não
só visto de uma perspectiva e de uma comparação objetiva, segundo
notamos principalmente em Subida II 8,3, mas também,
considerando a entranha mesmo da simbiose, a estrutura da virtude da
fé, que é "semelhança essencial" em relação à Divindade e, ao
mesmo tempo, algo psicológico, ou seja, um hábito do entendimento,
como apontamos reiteradamente.
Restam ainda alguns elementos necessários de análise no importante
texto de Subida II 3. Queremos, pois, deter-nos um pouco
fazendo algumas observações úteis para um estudo mais cabal do mesmo
antes de prosseguir explorando o pensamento sanjoanista.
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