|
1. Em seu estudo, o Pe. Labourdette insiste de modo especial no
trânsito das palavras ao conteúdo das mesmas na ordem da revelação. Escreve:
|
"Assim como o cego chega, através de palavras, a realidades -
cores - que diretamente não pode conhecer, não existindo proporção
exata entre essas palavras e as realidades mesmas para quem não as
conhece por outro caminho, assim a nós se apresentam na fé, mediante
palavras humanas 'que entram pelo ouvido', realidades superiores que
nossa luz natural não pode conhecer melhor que a orelha do cego as
cores [...]; mas, e aqui o exemplo falha, enquanto o cego não
tem outro meio de distinguir as cores e não conhece delas mais que os
nomes, o crente, ao contrário, recebe de Deus o 'hábito obscuro e
certo' que lhe permite penetrar verdadeiramente as realidades
sobrenaturais, coisa que sem esta ajuda estava absolutamente vedada à
razão natural".
|
|
|
M. Labourdette: Revue Thomiste
1937, I-II p. 21-22
|
Isto diz o Pe. Labourdette, tratando da fé sob o prisma da
contemplação; aqui pretendemos analisar a natureza da fé mesma
segundo São João da Cruz, tendo também em conta o papel que
desempenha na contemplação mística, como veremos mais abaixo. Se o
Pe. Labourdette afirma que o entendimento, em virtude do hábito da
fé, pode realmente chegar ao conteúdo da revelação mediante as
palavras que a anunciam - que não têm nenhuma proporção direta com
esse conteúdo -, a nós competiria, visto que nosso propósito se
limita a investigar a índole da fé, ver como ocorre isto. A
resposta nos pode conduzir a encontrar a natureza da fé.
Porém nossa pesquisa, segundo advertimos antes, parte de algumas
premissas tiradas do texto sanjoanista.
A primeira se refere ao modo de realizar-se a conjunção
'entendimento - fé'; ou, em termos mais precisos, entre o
entendimento e a luz infusa da fé. É certamente uma união muito
íntima e vital, graças à qual o entendimento se une a Deus em fé e
participa, de certo modo, do divino, alcançando assim uma
perfeição sobrenatural, segundo explica o Doutor Místico em
Subida II 6.
A Segunda premissa tomamos da operação do entendimento; considerada
em sua modalidade natural, segundo nos apresenta São João da
Cruz, tende espontaneamente a penetrar e a unir a si intencionalmente
a essência das coisas, que constituem o objeto de seu conhecimento.
Avançando pelo caminho destas duas premissas, descobrimos em Subida
II 3,1-2 idêntica tendência do entendimento à essência mesma
da Realidade, da qual se fez consciente mediante a revelação. Essa
tendência se frustaria se contássemos unicamente com suas forças
naturais; porém se consegue com o reforço da luz infusa. Isto é
precisamente o que constitui a fé.
Perguntamos como este trânsito das palavras reveladas a seu conteúdo
- passo que dá a fé e que em seu aspecto objetivo foi estudado pelo
Pe. Labourdette - se reflete dentro do sujeito, coberto de luz
divina. Eis aí, nesse cotovelo subjetivo, onde surge o hábito da
fé.
2. Quiçá alguém pergunte em que sentido se há de tomar essa luz
divina ou "luz excessiva" que intervém na estrutura íntima da fé.
Quem lê com atenção o texto sanjoanista, nota que ela é comparada
e se opõe à luz natural do entendimento. A luz natural do
entendimento, que "se estende, de seu, à ciência natural", não
é outra coisa senão a capacidade operativa ou cognitiva do
entendimento; ou seja, não o ato de entender, mas a capacidade de
realiza-lo. Assim, a "luz excessiva" que se compara e contrapõe
à capacidade natural do entendimento implica certa capacidade
'excessiva' de conhecer, isto é, a capacidade do conhecimento
sobrenatural. Isto é o que quer dizer o texto de Subida II 9,1:
|
"[...]só por este meio [...] Deus se manifesta à alma em
divina luz que excede todo entendimento".
|
|
Adverte-se, pois, que aqui se exige a intervenção do conhecimento
divino. E então podemos induzir: há um elemento divino na fé que
ilumina nosso entendimento. É o que significa a frase "esta excessiva
luz que se dá em fé". De alguma forma, o conhecimento divino se
mistura, dada a insuficiência cognitiva natural do entendimento, para
faze-lo capaz de penetrar a realidade revelada. E assim aparece
claramente que o entendimento, potencializado com essa luz, pode já
conhece-la.
Como acontece isto?
Consideremos os dados que se pode sacar dos textos de São João da
Cruz.
Em primeiro lugar, por parte da luz divina que intervém. Conhecemos
já o grande princípio da 'participação', que, anunciado em
Subida II 5,7, invade até o miolo toda a doutrina mística do
santo Doutor. O encontramos em Noite (Noite Escura II
20,5), em Cântico (Cântico 22,3), em Chama (Chama
3, 78); em qualquer lugar onde trate dos supremos graus de
união. Repetirá sempre que a alma se transforma em divina, se torna
Deus por participação.
Isto nos coloca claramente ante o aspecto ontológico do problema.
Porque a idéia de 'participação' se estende a toda a via de
união, penetra em todos os seus meios e determina com precisão o
limite entre o criado e natural e o sobrenatural e divino. Mais
ainda: a propósito do meio de união - a fé -, afirma que pertence
à mesma ordem, à mesma linha da Divindade, como ocorre no texto
fundamental de Subida II 8,3, encurtada a distância infinita que
a falta de "semelhança essencial" estabelecia.
Em segundo lugar, este dado vai se juntar ao princípio de
participação, aludido em Subida II 5,7. Portanto, a
intervenção da 'luz excessiva' para implantar a fé no entendimento
- ou, dito de outra forma, esta mistura e conexão da luz divina com
o entendimento para conhecer na fé a essência divina - não se pode
entender senão como certa participação do entendimento no
conhecimento divino, ou, dizendo de outro modo, como uma
comunicação da luz divina ao entendimento por participação contida
na fé, segundo a expressão autêntica do santo Doutor em Subida
II 5,4.
Então, quais são os limites desta comunicação da luz divina quando
recebida no entendimento pela fé? Já respondemos de algum modo a
esta pergunta ao dizer que possui eficácia para unir o entendimento com
a essência das verdades reveladas. Sua elevação ou potência
provêm da fé. Os textos do Doutor Místico manifestam claramente
que o entendimento natural é, de seu, insuficiente para chegar a
isto. Porém a luz divina vem em seu auxilio e o levanta acima do
âmbito de sua operação natural e o impulsiona a aderir à realidade
divina. Isto é o que significa "faz crer". Sem dúvida, o
entendimento atraído até a Divindade não recebe em si sua forma
intencionalmente, se aproxima às cegas, e não vê a essência divina
senão nessa obscuridade, que vem fazer as vezes de lugar onde se
verifica o encontro.
Tudo isto confirma que o entendimento chega pela fé à Divindade, e
chega também, de certa forma, à essência do objeto, conservando
sua índole natural, já que a luz divina participada não o transforma
intrinsecamente; só o une, isto é, o eleva e põe em contato com a
essência das verdades reveladas. Deste modo, durante toda a
caminhada terrestre o seguirá trabalhando por dentro, o irá
preparando gradualmente e fazendo-o subir os degraus da
contemplação, das noites purificadoras, etc., em direção à
visão da Pátria. Sem perder ou sem sair dos limites da fé
obscura.
Fica, portanto, esclarecida a qualidade ou intensidade da
participação que a fé comunica ao conhecimento divino. Ficam
também determinados os limites próprios desta virtude. E,
finalmente, como a fé é para o entendimento o meio próprio de união
e indiretamente meio de transformação, já que se requer que
intervenha a caridade.
Porém isto veremos melhor depois.
3. Já que a última análise apresentou com maior clareza a
relação entre fé e visão, parece-nos oportuno pôr em relevo
imediatamente como se aborda este assunto nas obras do Doutor
Místico, especialmente em Subida II 9,3-4.
Parece que uma e outra são essencialmente a mesma coisa, se tomarmos
'essencialmente' como equivalente à infusão da luz divina
participada e, ao par, como efeito principal de sua intervenção;
isto é, elevando o entendimento natural até o objeto sobrenatural.
Porém, se considerarmos a fé enquanto tal - isto é, como uma
virtude que implica o 'modo humano' do entendimento, envolto na
obscuridade que lhe resulta e o inunda na fé -, então aparece
nítida a distinção e se percebe muito bem por que a fé é virtude do
'homo viator'. Virtude de caminhantes, e em que sentido o é.
Voltaremos a tentar um esclarecimento deste ponto nas anotações
seguintes.
4. Sublinhamos anteriormente como nesta simbiose do divino e humano
que se origina e se desenvolve na fé, se observa com grande exatidão
o princípio da "semelhança essencial", que é a primeira coisa que
descobrimos na doutrina de São João da Cruz sobre a fé,
precisamente em Subida II 8,3. Vimos então como este princípio
nos apresenta a fé, antes de tudo, sob seu aspecto ontológico: a
"semelhança essencial" nos permitiu distinguir a infinita distância
que separa a realidade divina sobrenatural da realidade natural criada.
E, ao mesmo tempo, como a fé transcende a ordem de qualquer
criatura, por perfeita que seja, e está na posição da "proporção
de semelhança" em relação à Divindade, proporção que falta a
todas as criaturas. Simultaneamente, o texto sanjoanista nos reduziu
a "proporção de semelhança" da fé em relação à Divindade à
linha dinâmica do entendimento, isto é, a uma linha intencional.
Este último detalhe apareceu logo, sobretudo na análise de Subida
II 9,1, onde o fundamento constitutivo e explicativo da
'semelhança' entre fé e Divindade é essencialmente o mesmo da
visão beatífica; a única diferença que aponta consiste em
distinguir entre consecução clara do objeto e consecução obscura do
mesmo - a isto chamamos "intencionalmente escondida" -, clara é a
visão; obscura, a fé.
A análise de Subida II 3 nos obriga aqui, uma vez mais, a
considerar e admitir a validade do princípio "semelhança
essencial"; na presente ocasião, para a estrutura intrínseca da
fé.
Propriamente falando, a "proporção de semelhança" entre o
entendimento e a realidade divina, cuja existência nos foi revelada,
é constituída pelo elemento "luz excessiva"; isto é, por certa
participação do conhecimento divino. Eis aí o motivo da exigência
para a fé da "semelhança essencial". A proporção de
semelhança, constituída pela luz divina essencialmente participada,
torna possível e causa o efeito fundamental da fé: a união do
entendimento com Deus. E neste sentido, o princípio de
'semelhança' intervém na fé em linha, por assim dizer,
ascendente. Porém, intervém também em linha descendente, ou
seja, produzindo a obscuridade redundante. Portanto, em sentido
negativo. E aí precisamente aparece o modo humano do entendimento que
se aproxima e chega a Deus com a ajuda da luz divina participada pela
fé.
Concretamente, devemos dizer que no modo humano, o entendimento pela
fé não alcança a Divindade em si, não adquire sua forma de maneira
clara; está nela só "intencionalmente escondida". O que quer
dizer que se manifesta ao entendimento envolta em obscuridade, derivada
de sua transcendência infinita ao colocar-se em contato com ele quando
pela fé se adere e une a ela.
Tudo isto cai estritamente dentro da lógica da "semelhança
essencial".
5. A ação da luz divina participada - que faz efetivo o contato
com o objeto divino - e a redundância de obscuridade no entendimento
- que não perde seu modo humano de conhecer, segundo se afirma no
texto sanjoanista, especialmente em Subida II 3,2 - são duas
coisas paralelas no pensamento do Doutor Místico e, ao mesmo tempo,
ostensivas de sua peculiar concepção da fé; supõe que esta introduz
uma proporção intrínseca do entendimento humano em relação à
Divindade. E não só uma proporção de semelhança, mas também
uma proporção no sentido de incapacidade e insuficiência. Ambos os
elementos concorrem essencialmente para a fé, em conexão íntima e
dinâmica, como teremos ocasião de ver mais tarde. A proporção de
semelhança é essencial, já que é a que determina que a fé seja
meio proporcional de união. O outro elemento já parece mais
secundário e conseqüente; sem dúvida, tendo em conta que a fé não
pode conceder mais que uma limitada comunicação da luz divina - e,
portanto, uma correlativa participação limitada -, trata-se de um
elemento igualmente essencial.
Pela distinção deste duplo elemento se explica também a conexão
'luz - trevas', que já descobrimos na linguagem do Doutor
Místico. A união de elementos aparentemente tão opostos serve para
expressar a íntima e intrínseca proporção do entendimento em
relação à Divindade. E não é preciso acrescentar que se trata de
uma proporção sobrenatural, porque está subentendido: suposto o
principio da "semelhança essencial", não pode ocorrer outro tipo de
proporção.
6. A proporção sobrenatural está situada em uma linha dinâmica,
isto é, ordenada a conseguir a união com Deus. Pois bem, São
João da Cruz nos apresenta essa íntima proporção do entendimento
como um "hábito obscuro".
Já sabemos em que sentido emprega o Doutor Místico em sua obra o
termo 'habitus'; antes de tudo, este nome expressa uma perfeição
da potência ordenada à operação; perfeição inferior ao ato, já
que a ele se ordena.
Isto posto, perguntamos: Toda a análise feita, tudo o que resultou
para nós da sondagem de Subida II 3, refere-se propriamente ao
ato, ou melhor ao habito?
A resposta está na média: refere-se simplesmente à fé. Porque
São João da Cruz não apresentou a questão nesta ordem:
primeiro, da fé; segundo, de seu ato.
Todos os elementos que, mediante a análise de Subida II 3 e de
outros textos, isolamos pertencem globalmente a estrutura da fé.
Ocorrem nela enquanto hábito "obscuro e certo". E ocorrem também
em ato de fé. No primeiro caso são constitutivos do "hábito
obscuro de união" na potência intelectiva, do que trata Subida II
5,2. No segundo, esses elementos a aperfeiçoam quanto a sua
dimensão dinâmica.
São eles os que constituem também a "união transeunte [...]
quanto ao ato" no entendimento?
Isto ainda resta por averiguar.
7. Por último, devemos acrescentar que a fé, enquanto com a ajuda
da luz divina participada possibilita ao entendimento contatar a
Divindade nas verdades reveladas, eleva e acumula nele sua tendência
íntima e natural a conhecer a essência da realidade que os sentidos
lhe descobrem. Sob este aspecto, de modo algum podemos dizer que a
fé produz um vazio ou privação no entendimento; pelo contrário, o
enriquece, fazendo-lhe um supremo favor. Mas, enquanto o
entendimento conserva seu modo humano de conhecer, de onde deriva a
obscuridade, sob este aspecto se poderia falar de certa privação.
Expliquemo-nos. O entendimento, por sua tendência inata, sai a
caça da forma do objeto, para apossar-se dela com suas armas
intelectivas, e, conseguida a presa, "gozar". Porém, como não
o consegue totalmente no objeto da fé, aparece a "obscuridade". E
isto é, obviamente, uma 'privação'. Tamanha privação -
sempre devemos lembrar para sermos fiéis ao pensamento do Doutor
Místico - não consiste tanto na falta de evidência intelectual - a
evidência na qual comumente desemboca o processo científico - quanto
na falta ou carência da forma intencional do objeto. Por isso, a fé
se compara e contrapõe à visão. E, em relação a ela, se atribui
à fé, por um lado, a índole intencional - a Divindade
intencionalmente presente ao entendimento - e, por outro, o caráter
negativo, ou seja, a obscuridade: Deus 'escondido', Deus
conhecido na 'obscuridade' intelectual, Deus possuído ou
compreendido incompletamente.
Em suma: o Deus da fé pertence à ordem ou plano do entendimento,
sem que este consiga abarca-lo ou compreende-lo plenamente.
8. Digamos, em fim, uma palavra a propósito da fé como "hábito
certo".
São João da Cruz atribui certeza à fé simplesmente, sem mais
explicações, como ocorre com a 'obscuridade', a cujo propósito a
interpretação tem sido tão abundante.
A certeza da fé procede da comunicação da luz divina e constitui uma
íntima qualidade de sua participação no entendimento. Estaria,
pois, implicada na "luz da fé", que, "por seu grande excesso,
oprime e vence a do entendimento". Na verdade, tal vitória no
entendimento não se daria se faltasse certeza à fé. O Doutor
Místico, que tanto insiste na 'obscuridade', não se detém a
explicar a 'certeza', que denota evidência.
Retornando ao texto, advertimos que a fé, hábito obscuro e certo,
se explica psicologicamente como "consentimento da alma ao que entra
pelo ouvido". Pois bem, parece que "consentimento" se contrapõe
aqui a "ciência". E então teríamos que concluir dizendo que
"consentimento" implica tudo o que anteriormente descobrimos na
análise: implica 'obscuridade' e, ao mesmo tempo, 'certeza'.
Sem dúvida, do ponto de vista da história das idéias, trata-se de
uma fórmula doutrinal corrente. O típico ou específico do
pensamento sanjoanista a propósito da dimensão psicológica da fé
está no que se analisou anteriormente, não neste último.
9. Chama ainda nossa atenção o que no mesmo capítulo de Subida
II 3,4, um pouco mais abaixo, diz:
|
"[...] a fé[...] não somente produz notícia e ciência,
mas como dissemos, priva e cega de outras quaisquer notícias e
ciência, para que possa bem julgar dela. Porque outras ciências,
se alcança com a luz do entendimento; mas esta da fé, sem a luz do
entendimento se alcança, renunciando-a pela fé; e com a luz
própria se perde, se não se obscurece [...]. Logo está claro
que a fé é noite escura para a alma, e desta forma a ilumina. E
quanto mais a obscurece, mais luz lhe dá de si".
|
|
Principalmente, o texto tem valor de corolário do precedente e de
preparação do terreno onde vai entrar a exposição. A ciência da
fé à qual o texto se refere pode ser entendido no sentido
individualizado na investigação anterior, e neste caso eqüivaleria
à 'obscuridade' típica da fé. Mas o contexto nos inclina a outra
direção, exigindo que interpretemos esta 'ciência da fé' no
sentido de "noticia obscura geral e confusa que ocorre na fé". No
sentido, pois, de contemplação, assunto com o qual nos ocuparemos
mais tarde.
Portanto, esta ciência da fé não se adquire por nenhuma luz
natural, mas sim, por sua negociação. O formidável e profundo
paradoxo expressivo se crava na essência psicológica da fé e nos
permite explorar as negociações da noite ativa do espírito.
10. Quando o Doutor Místico afirma que não podem as demais
ciências julgar acertadamente com a fé, está se referindo a sua
essencial inacessibilidade para qualquer tentativa de conquista natural
do entendimento. Esta inacessibilidade essencial torna-se misteriosa
e obscura para o sujeito pela transcendência da fé em direção à
divina essência, à qual é conduzida pela luz infusa, e isto a
coloca necessariamente muito longe de qualquer aquisição natural do
entendimento. E, por isso, a fé, em sua adesão natural a Deus,
obscura e certa ao mesmo tempo, está fora do alcance das ciências
humanas.
As palavras posteriores do Doutor Místico dizem que a fé é noite
escura para a alma, e, sendo-o, a ilumina; e que quanto mais a
obscurece, tanto mais luz irradia.
Já sabemos que, para São João da Cruz, ambas as coisas ocorrem
na fé, expressando sua índole intrínseca, seu conteúdo profundo,
sua proporção de semelhança à Divindade e, ao mesmo tempo, sua
desproporção psicológica.
A fé é noite... E esta estupenda afirmação nos leva à análise
seguinte.
|
|