2. O CÂNTICO ESPIRITUAL.

O estudo analítico de Cântico Espiritual deve ser empreendido com certa cautela, postulada pela discussão crítica em torno de sua autenticidade textual. Já aludimos a esta disputa na Introdução, estabelecendo a norma a que nos ateremos.

Ademais, devemos repetir também, já de início, que São João da Cruz se preocupou mais em descrever a experiência mística do que em sistematiza-la. Desde logo, a sistematização em Cântico e em Chama é menor do que em Subida e em Noite Escura. De todas forma, existem elementos valiosos, sobretudo em Cântico, para nosso tema.

Já no 'prólogo' ao Cântico lemos:

"A sabedoria mística, que é a sabedoria do amor, de que tratam as presentes canções, não precisam ser entendidas distintamente para produzir efeito de amor e afeição na alma: porque age ao modo de fé, pelo qual amamos a Deus sem o entender".

A importância do amor no conhecimento místico é capital. O amor não necessita entender distintamente o objeto; basta-lhe capta-lo ao modo da fé, na qual se ama a Deus sem inteligência clara.

Eis aí, pois, sublinhado, no pórtico de Cântico, o 'modo de fé', que consiste em um conhecimento obscuro e geral, sem claridade objetiva, porém cordialmente amoroso.

Porém a chave da doutrina sobre a fé em Cântico é oferecida ao comentar a estrofe 12 que diz:

"Ó cristalina fonte,
Se nesses teus semblantes prateados
Formasses de repente
Os olhos desejados
Que tenho nas entranhas desenhados!"

Segue a declaração 2:

"Como com tanto desejo suspira a alma pela união do Esposo, e vê que não encontra meio nem remédio algum em todas as criaturas, volta-se a falar com a fé, como aquela que mais vivamente lhe há de dar luz sobre seu Amado, e a toma como meio para isto; porque, na verdade, não há outro meio pelo qual se chegue à verdadeira união com Deus, segundo se dá a entender em Oséias, dizendo: 'Eu te desposarei na fé' (Os 2,20); e disse-lhe com grande desejo: Ó fé de meu Esposo Cristo [47]; se as verdades de meu Amado que infundiste em minha alma com obscuridade e trevas já as manifestasses com claridade, de maneira que o que contêm em fé, que são notícias informes, as mostrasses e descobrisses, apartando-te delas de repente, transformando-as em manifestação de glória! Diz, pois , o verso:

Ó cristalina fonte!"

Exegese - Comparando as duas redações nota-se que o texto B é mais preciso que o texto A, porém a substância doutrinal é a mesma. O que em um e outro se ensina já o conhecemos: as criaturas não são meio adequado de união; a fé, sim. É a doutrina fundamental de Subida. Também a relação existente entre a fé e a visão encontramos ali.

Porém devemos sublinhar o modo com que expressa agora essa doutrina: as verdades reveladas por Deus permanecem na fé à maneira de "notícias informes". O sentido, a meu ver, de "informe" é que se trata de conceitos sem forma. Deduz-se do contexto, pois continuando fala de "notícias formadas", que são aquelas que ocorrem na visão beatífica. Portanto, as "notícias informes" são as que ocasionam a obscuridade e trevas da fé - expressões que já conhecemos pelo que expusemos -, enquanto as "notícias formadas e acabadas" são as específicas da visão clara do céu.

Este pensamento do Doutor Místico é idêntico ao de Subida II 3, onde afirma que a fé não é "ciência"; não precisamente por ausência de demonstração, mas simplesmente por falta de claridade objetiva. E por isso é "hábito obscuro". Noite.

Prossegue o texto 3:

"Chama 'cristalina' a fé por dois motivos: o primeiro, porque é de Cristo, seu Esposo; e o segundo, porque tem as propriedades do cristal de ser pura nas verdades e forte e clara, limpa de erros e formas naturais. E a chama 'fonte' porque dela manam para a alma as águas de todos os bens espirituais. Cristo nosso Senhor, falando com a samaritana, chamou fonte à fé, dizendo que todos aqueles que cressem nele teriam em si uma fonte cujas águas jorrariam para a vida eterna (Jo 4,14). E esta água era o espírito que haviam de receber por sua fé os crentes (Jo 7, 39)".

Exegese - A índole do texto é mais descritiva e poética. Contudo, são dignas de relevo duas afirmações: primeira, que a fé é pura, forte e clara em suas verdades - afirmação que se refere ao aspecto objetivo da fé -; segunda, que "é limpa de erros e formas naturais" - o que já pertence à dimensão subjetiva da noite -; a fé não só não propõe nem pode propor erros, mas também 'nega' subjetivamente as formas naturais. Parece-me que neste último o Doutor Místico está se referindo à virtude, que, ao unir nosso entendimento a Deus, inclui, em contrapartida, a abnegação das formas intencionais claras e distintas, segundo vimos na análise de noite ativa do espírito.

Prossegue o texto:

"Se nesses teus semblantes prateados.

4. Às proposições e artigos que nos propõe a fé chama 'semblantes prateados'. Para a compreensão desse verso e dos seguintes, devemos notar que a fé é comparada à prata nas proposições que nos ensina, e as verdades e substância que em si contêm são comparadas ao ouro; porque essa mesma substância que agora cremos vestida e coberta com prata de fé, havemos de ver e gozar na outra vida a descoberto e despojado o ouro da fé. Falando disto, Davi diz: Se dormirdes entre os dois coros, as penas da pomba serão prateadas, e as pontas de suas asas serão da cor do ouro (Sl 67,14). Quero dizer que, se fecharmos os olhos do entendimento às coisas de cima e às de baixo (que significa 'dormir no meio'), ficaremos só na fé, à qual chama pomba, cujas penas, que são as verdades que nos diz, serão prateadas, porque nesta vida a fé nos propõe essas verdades obscuras e encobertas, e por isso são aqui chamadas semblantes prateados; porém, no fim da fé, quando esta se acabar pela clara visão de Deus, ficará a substância da fé, despojada do véu desta prata, da cor do ouro. De modo que a fé nos dá e comunica o próprio Deus, porém coberto com prata de fé; e nem por isso não impede de ver verdadeiramente, assim como alguém que nos dá um vaso de ouro prateado, que embora coberto de prata não deixa de ser o dom de um vaso de ouro. Assim, quando a Esposa nos Cânticos desejava esta possessão de Deus, Ele prometendo-se a ela, como é possível nesta vida, lhe diz que lhe faria umas cadeias de ouro, porém marchetadas de prata (Cant 1,10).Nisto prometia dar-se a ela encoberto pela fé. Diz, pois, agora a alma à fé:

Oh! Se nesses teus semblantes prateados,

que são os artigos já referidos, com os quais tens coberto o ouro dos divinos raios, que são os olhos desejados, que logo acrescenta dizendo:

Formasses de repente
Os olhos desejados!"

Exegese - Este comentário, talvez a exposição mais exata do tema, poderia ser tomado como um precioso desdobramento das breves e rápidas pinceladas de Subida II 3,1-3, embora em outro plano. No presente comentário explica somente o aspecto objetivo da fé, a relação entre este e os contidos. Nada diz da "luz excessiva", nada do "hábito obscuro e certo". Está ausente o aspecto subjetivo da fé, o que diz respeito à fé precisamente como virtude. Por conseguinte, compara as proposições ou verdades de fé - as fórmulas de fé, diríamos - à prata. Pois bem, essas fórmulas, propostas de um modo conceitual, contêm em si a substância e as verdades que nesta vida 'se crê' e na outra 'se vê'. O termo 'substância' é tomado no sentido intencional, enquanto se aplica ao entendimento que conhece. Talvez em nenhum outro lugar como neste tenha indicado com tanta nitidez a ordem intencional da fé:

"substância que agora cremos [...]; que havemos de ver".

Em idêntico sentido devemos tomar aquelas palavras:

"a fé nos dá e comunica o próprio Deus".

Proposições, conceitos revelados. Isto é o que a fé dá ao entendimento e o que lhe esconde. Esconde 'intencionalmente'. Ou seja, o dá envolto em obscuridade. Não obstante, aponta o santo Doutor, dá verdadeiramente Deus. E o explica com um exemplo: o vaso de ouro, embora esteja tampado, não deixa de ser ouro; e assim se a alguém se dá, o que é dado é verdadeiramente de ouro. De modo análogo, estas verdades reveladas, estes conceitos de fé, embora dados 'escondidos', dão a divina 'substância', a divina Verdade. Dão o próprio Deus. Isto se entende em um plano intencional, pois a 'substância' divina se comunica ao entendimento de um modo oculto, porém verdadeiro; quer dizer, em identidade intencional com o que é em si. E, portanto, o termo 'substância' se qualifica com 'entendida' - "substância entendida" -, ou seja, a essência inteligível do objeto, segundo a explicação que demos mais acima a propósito de Subida II 8,5 e III 13,4: modo natural de conhecer e modo de conhecer pela fé. Em uma palavra: a 'substância' permanece coberta Dom a capa das mesmas proposições da fé; e estas, em sua expressão conceitual, correspondente à natureza do entendimento nesta vida, a 'escondem' ao mesmo tempo que a 'dão'.

Convém ajustar isto com o que se disse analisando Subida II 3. Devemos Ter em conta, por um lado, a incapacidade do entendimento para penetrar as proposições reveladas de um modo conatural a ele - naturalmente chegara a captar a essência -; e, por outro lado, a intervenção da "luz excessiva" da fé, que, em virtude de sua proporção ontológica - "meio proporcional de união" -, faz com que o entendimento se adira às proposições reveladas de um modo 'escondido', obscuro. É assim que o entendimento humano se une em fé à substância das verdades reveladas, ontologicamente, mas não psicologicamente, pois sua natureza e, portanto, seu modo de conhecer não se transmudam com a "luz excessiva". E assim, psicologicamente, a fé termina em um "consentimento" intelectual ao que não "vê". Ambas as coisas - união do entendimento à 'substância' das verdades reveladas em virtude da "luz excessiva" e "consentimento" psicológico às mesmas - se dão simultaneamente no mesmo ato. Isto, como é obvio, exclui, segundo o pensamento de São João da Cruz, a conquista total da 'substância' entendida.

Sob este prisma aparece mais em relevo a "obscuridade" e a razão do "hábito obscuro" que caracteriza a fé. Eis aqui, pois, que ao entendimento se impõe proposições reveladas, e ele adere a elas em virtude da "luz excessiva". Nessas proposições que chegam pelo ouvido se exclui a 'substância', do mesmo modo que ocorre quando os sentidos transmitem ao entendimento a imagem dos objetos. Neste caso, o entendimento deve capturar a substância através da imagem, e uni-la a si em sua inteligibilidade. Na fé, o processo não é de todo igual: a ajuda da "luz excessiva" é evidente, porém o entendimento não capta a 'substância' intencionalmente como no conhecimento natural, quando se serve dos sentidos. Daí a "obscuridade" típica da fé. Que não deve ser entendido como um lance do entendimento com a ajuda da "luz excessiva" até a essência do mistério, e que, deslumbrado, se afunda em trevas; a obscuridade do entendimento em fé deve ser entendida assim: as verdades reveladas contêm realmente a 'substância' divina intencionalmente, e o entendimento se adere a ela em virtude da "luz excessiva"; adere-se a essa 'substância' enquanto contida nas proposições ou conceitos (trata-se, pois, de uma adesão intencional); com efeito, no decurso de toda a peregrinação terrena não é capaz de chegar a essa 'substância' intencional, com a qual de fato se uniu, pela "luz excessiva" da fé, de um modo claro e evidente. Assim é que se deve entender a "obscuridade" da fé. Sua motivação está radicada na incapacidade do entendimento para penetrar a 'substância' das verdades reveladas, intencionalmente falando. Em outros termos: a incapacidade do entendimento para entender a essência divina nas verdades reveladas.

Tal é a explicação da "obscuridade", cuja razão de ser aparece agora mais clara comparando o que 'declara' Cântico com o que diz Subida II 3. E assim recobram consistência as conclusões que tiramos da análise de Subida, ao contrapor o "hábito obscuro" à "ciência"; não por falta de demonstração, mas porque a fé não consegue 'ver' plenamente a Verdade.

Prossegue o texto 5:

"Por olhos entende, como dissemos, os raios e verdades divinas; as quais, como também já dissemos, a fé nos propõe em seus artigos cobertos e informes. E assim é como se dissesse: Oh! Se essas verdades que confusa e obscuramente me ensinas, encobertas em teus artigos de fé, acabasses já de dar-me clara e determinadamente despojadas

Que tenho nas entranhas desenhados".

Exegese - A declaração acrescenta mais alguns esclarecimentos. Antes de tudo, afirma que as proposições da fé são os 'artigos' da fé; e que neles se 'escondem' as "verdades divinas"; ou seja, a 'substância' de Deus em se ser intencional, o que Deus é em si relativamente ao entendimento. Isto é o que se crê imediatamente; o entendimento adere aos 'artigos' ou proposições da fé segundo a condição da vida presente.

Em segundo lugar, é de suma importância a contínua "presença do Amado", à qual alude o texto. Porém a 'presença' não tira a qualidade de "não visto"; tal situação estimula o desejo de vê-lo o mais depressa possível.

E este intenso desejo não devemos esquecer: é muito valioso para o que nossa pesquisa está indagando. Como veremos mais adiante.

Prossegue o texto 6:

"Diz que os tem desenhados nas entranhas, isto é, em sua alma, segundo o entendimento e a vontade, porque segundo o entendimento tem estas verdades infundidas pela fé em sua alma. E porque a notícia delas não é perfeita, diz que estão desenhadas; porque assim como o desenho não é perfeita pintura, assim a notícia da fé não é perfeito conhecimento. Portanto, as verdades que se infundem na alma pela fé estão como desenhos, e quando estiverem em clara visão, estarão na alma como pintura perfeita e acabada, segundo aquilo que diz o Apóstolo, dizendo: 'Quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é parcial' (1 Cor 13,10). Que significa: Quando vier o que é perfeito, que é a clara visão, acabará o que é em parte, que é o conhecimento pela fé".

Exegese - O texto, tomado em sua totalidade, nos oferece uma comparação da fé com a visão; concretamente, sob o prisma da perfeição e da imperfeição da forma intencional do objeto em um e em outra.

A comparação parece supor a presença da espécie inteligível, coisa que o Pe. Crisógono exclui da teoria sanjoanista do conhecimento. Portanto, o texto transitório não apoia a hipótese do Pe. Crisógono. A comparação nos é muito útil, enquanto nos apresenta em idêntico plano a perfeita conquista intencional da forma divina na Pátria e a contraposta imperfeição da fé, que ainda luta para consegui-la. "Desenho" e "pintura": fé e visão. O desenho é sempre um esboço primitivo em direção à pintura acabada, colorida. É algo 'imperfeito' em relação ao 'perfeito' dentro da mesma ordem. É o que ocorre com a fé em relação à visão: não é mais que uma 'impressão' ou "realização" imperfeita da forma divina intencional no entendimento. Trata-se, obviamente, de uma imperfeição de tipo cognitivo; não é "perfeito conhecimento", como é o da visão.

Insistindo na releitura do símil aduzido: a impressão da forma divina, tal como se dá pela fé, não constitui um princípio de conhecimento perfeito; o contrário, constitui a informação intencional que se dá na Pátria, onde o conhecimento é pleno e 'visual'.

Ademais, o texto diz que o elemento material do 'desenho' são as verdades propostas em cadeia de 'artigos'; as mesmas verdades, sem a 'prata' ou a coberta da fé (Cant 11,4), são 'pintura' perfeita já no céu, sem o véu conceitual dos artigos.

Por último, o texto ensina que a imperfeição da forma intencional impressa se enraíza na alma mediante o entendimento e a vontade. Como é mediador de um e como é mediador da outra? Quanto ao entendimento, a resposta é rápida: porque essas verdades se infundem na alma através do entendimento. Quanto à vontade, que parte lhe corresponde na apropriação da 'substância' revelada na fé? O Doutor Místico não responde.

Prossegue o texto 7 :

"Porém sobre este desenho da fé há outro desenho de amor na alma do amante, e este segundo a vontade; na qual de tal maneira se desenha a figura do Amado e tão conjunta e vivamente se retrata quando há união de amor, que é possível dizer que o Amado vive no amante e o amante no Amado; e de tal maneira o amor realiza a semelhança na transformação dos amantes, que se pode dizer que cada um é o outro e que ambos são um só. A razão disso é que a união e transformação de amor, que um dá posse de si ao outro, e cada um se deixa e se troca pelo outro; e assim, cada um vive no outro, e um é o outro, e ambos são um por essa transformação de amor.

Isto é o que quis dar a entender São Paulo (Gal 2,20), quando disse: 'Vivo autem, iam non ego: vivit vero in me Christus' (Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim)".

Exegese - Nossa observação encontra propriamente nas últimas linhas transcritas. Afirma-se nelas que, além da posse de Deus pela fé, há outra muito mais alta e vivencial: a posse pelo amor. Estamos instalados assim na linha-mestra da doutrina mística de São João da Cruz, que temos seguido e designado como 'união divina', 'transformação da alma', etc., e que cai diretamente dentro da área da caridade, e na área da fé, enquanto conhecimento obscuro, subordinado e unido à caridade. Pelo amor, diz o Doutor Místico, não só se tem uma possessão intencional do objeto no entendimento - que sempre é um modo imperfeito de posse -, mas uma união viva e transformadora tão funda, que se pode em verdade dizer: o Amado vive no amante e o amante no Amado.

Aqui já não se trata de uma simples semelhança de vida, mas de uma mútua possessão, de uma identidade que justamente merece o nome de "união". O amor 'assemelha', produz semelhança, segundo nos é dito em Subida I 4; e por isso transforma. Essa é sua propriedade inata. E por isso não só oferece ao entendimento uma 'semelhança intencional', mas faz a alma inteira 'semelhante' a Deus pela participação de união transformadora. O modo de realização disto é assunto que cai já fora dos limites específicos de nosso tema.

A análise emigra agora ao Cântico 14. O que vamos verificar, ao fio das 'declarações' sanjoaninas, não se refere imediatamente ao tema da fé, porém pode nos ser útil enquanto esclarece a natureza do conhecimento contemplativo. Assim, pois, a canção 14 do Cântico nos anuncia que a alma chegou, no caminho da união, a um grau muito alto: ao "casamento espiritual". Nele se infundem diversas e sublimes graças do "Esposo"; graças que o Doutor Místico descreve de forma alegórica. Peculiarmente interessante que se encontra no último verso:

"O sussurro dos ares amorosos".

Declaração do "Cântico" 14,12:

"Duas coisas diz a alma no presente verso; 'ares' e 'sussurro'. Por ares amorosos entende-se aqui as virtudes e graças do Amado, as quais, mediante a dita união do Esposo, investem na alma e a ela se comunicam com imenso amor e tocam em sua própria substância. E o sussurro destes ares significa uma elevadíssima inteligência de Deus e de suas virtudes, a qual redunda no entendimento, proveniente do toque que estas virtudes fazem na substância da alma, e é este o mais subido gozo que há em tudo o mais que deleita a alma aqui".

Exegese - O texto é muito claro. Porém talvez sejam necessários alguns pré requisitos para captar melhor seu jogo.

Quando São João da Cruz distingue "ares" e "sussurros", com o primeiro termo quer indicar a comunicação divina no "casamento espiritual"; e com o segundo, o que dessa comunicação resulta no entendimento em forma de suprema e saborosíssima inteligência de Deus, que é realmente o ápice do contentamento e da fruição possíveis neste estado.

Quanto aos "ares" convém notar duas coisas.

Primeira: já em Subida II 24,4 deixou assentado este princípio:

"[...] embora estas visões de substâncias espirituais não possam ser percebidas de modo claro e evidente nesta vida pelo entendimento, podem, porém, ser sentidas na substância da alma com suavíssimos toques e graças, que pertencem aos sentimentos espirituais".

Acerca destes "sentimentos espirituais" escreve um capítulo especial, Subida II 32, onde diz que

"deles resulta no entendimento, apreensão, notícia e inteligência".

Segunda: a propósito da terminologia do doutor Místico, opina o Pe. Labourdette [48] que 'substância da alma' não tem, no texto presente e em outros similares, um significado estritamente filosófico, isto é, como algo contraposto às "potências"; designa, sim, aquela parte da alma em que se consuma e onde se experimenta o conhecimento e o amor místicos.

Com efeito, em Subida II 24,4 o santo Doutor declara abertamente sua intenção de tratar da união da alma com a 'substância divina'. Diz então:

"A estes se endereça e encaminha nossa pena, que é o divino abraço e união da alma com a Substância divina; e isto há de ser quando tratarmos da inteligência mística e confusa ou obscura que ainda fica por dizer, quando havemos de explicar como, mediante esta notícia amorosa e obscura, se junta Deus com a alma em alto grau e sublime; porque, de algum modo, esta notícia obscura e amorosa que é a fé serve nesta vida para a divina união, como o lume de glória serve na outra de meio para a clara visão de Deus".

Esta passagem tem para nós excepcional valor, pois serve para conectar o que estamos analisando em Cântico 13 com a doutrina exposta mais acima. A "união e abraço da alma com a Substância divina" - também chamada "toque substancial" - está relacionada à inteligência obscura e amorosa. E esta, com a fé. Eis aqui a razão de por que é preciso analisar a fundo esta parte de Cântico. Achamos agora idêntica doutrina sobre o "toque" das perfeições divinas na "substância" da alma, que sucede o 'casamento espiritual', e deste resulta uma "elevadíssima e saborosíssima inteligência de Deus e de suas virtudes no entendimento". É o mesmo que ensina em Subida II 24,4 e em II 32.

Porém, que é este "toque"? Segundo o Pe. Gabriel de Santa Maria Magdalena [49] , não se pode identificar com o influxo dos dons do Espírito Santo na "inteligência obscura, geral e amorosa", de que nos ocupamos ao analisar Subida II 29,6 e logo Noite Escura I 17,2. O "toque" pertencia, então, a outro plano de experiência mística: na moção do Espírito Santo pelos dons e pela caridade destaca-se propriamente a linha da causalidade eficiente; aqui se acentua, melhor , algo que desempenha as vezes de causa material desta experiência.

Sobre o "sussurro dos ares" oferece um esplêndido texto Cântico Espiritual 14,13, comparando a comunicação mística a uma rajada de vento que produz uma dupla sensação: no tato e no ouvido. Diz:

"O toque das virtudes do Amado é sentido e saboreado com o tato desta alma, que está na substância dela; e a inteligências de tais virtudes de Deus se sente no ouvido da alma, que é o entendimento".

Sensação de ar agitado no tato, sensação de som no ouvido. Note-se que chama ao entendimento 'ouvido da alma', expressão que voltaremos a encontrar mais adiante. Não 'visto', mas 'ouvido'.

A união ou "toque" produz uma sensação suavíssima na "substância" da alma,

"do qual deriva no entendimento o sussurro da inteligência. E chama-a sussurro porque assim como o sussurro do ar causado entra agudamente no orifício do ouvido, assim esta sutilíssima e delicada inteligência entra com admirável sabor e deleite no íntimo da substância da alma, e esse deleite é muito maior que todos os demais. A razão disto é que é concedida à alma substância apreendida e despojada de acidentes e imagens; porque é produzida no entendimento que chamam os filósofos passivo ou possível, porque passivamente, sem nenhuma cooperação de sua parte, a recebe; e nisto está o principal deleite da alma, porque é no entendimento, que é sede da fruição, como dizem os teólogos, a qual é a visão de Deus [...]; aqui a alma o denomina sussurro dos ares amorosos, porque a amorosa comunicação das virtudes de seu Amado transborda para o entendimento".

Cântico 14, 14

Exegese - Identificamos a primeira raiz: da união amorosa, do "toque", resulta no entendimento um entender sutil e saboroso. O texto que acabamos de citar contém ainda preciosos matizes deste entender. Penetra na substância da alma e causa ali suma fruição. Por três motivos:

Primeiro - porque se trata de uma "substância apreendida e despojada de acidentes e imagens". Já sabemos por Subida III 13,4 que 'inteligência' significa o término da intelecção, o qual consiste em que o entendimento chegue à essência do objeto inteligível.

Segundo - porque a "substância apreendida" é produzida no entendimento passivo, que é o que recebe e no qual, segundo os teólogos, tem lugar a fruição da visão da essência divina na Pátria. Assim, a "substância apreendida" é produzida, e a recebe como uma redundância da comunicação divina na "substância" da alma. A razão própria para que esta comunicação, feita diretamente na "substância", produza essa suma fruição é que no entendimento participa dela ao receber sua "substância apreendida e despojada". Isto é precisamente o ápice da fruição. Portanto, o entendimento goza realmente a "substância apreendida", a forma divina intencional, nessa suprema contemplação. Que isto é o que quer dizer, como observamos comparando-o com o que está exposto em Cântico 11,4: a forma intencional divina, encoberta nas proposições conceituais da fé, sai agora delas, se liberta, se separa e se une ao entendimento. E assim termina seu trabalho, sua fadiga infrutuosa, que analisamos a propósito de Subida II 3, onde a atividade do entendimento agente não era capaz de sacar essa "substância" das proposições que lhe chegavam pela via dos sentidos (ex auditu). E, em conseqüência, o entendimento passivo ou possível se encontra sem forma intencional, em essencial privação de fé, em obscuridade. Porém agora vemos como se essa privação se tivesse, de alguma maneira, acabado e satisfeito o entendimento. Porque lhe comunica a "substância apreendida" não por via ordinária - que consiste na elaboração preparada pelo entendimento ativo -, pois isto é impossível, mas por redundância de amor.

Em que consiste esta forma "despojada e entendida"? sigamos verificando. Em Cântico 13,15, o Doutor Místico nos ensina que não só se trata de uma "substância apreendida", mas também de um "descobrimento de verdades da Divindade e revelação de segredos ocultos seus". Trata-se então, sem nenhuma dúvida, de um conhecimento muito profundo e penetrante de Deus, de um conhecimento "puramente espiritual" e da espécie de 'visão'. Que denominador comum existe entre a "substância apreendida" e essas revelações e visões? Antes de tudo, parece que em umas e outras existe como uma intuição geral e simples da Divindade; e, no segundo caso, um conhecimento das verdades que estão em Deus. Porém de nenhum modo sob forma intencional particular, que pudesse supor contato com os sentidos. Ou seja, não a base de "apreensões distintas", mas por uma espécie de profunda intuição da "substância apreendida".

Porém estas questões estão já a margem de nosso tema.

Voltemos ao texto. Que reclama nossa atenção ao afirmar:

"[...] assim como a fé, como diz São Paulo, entra pelo ouvido corporal, assim também aquilo que nos diz a fé, que é a substância compreendida, entra pelo ouvido espiritual".

Cântico 14, 15

E, depois de corroborar com o dito em Jó 42,5, conclui:

"No qual dá a entender claramente que o ouvir com o ouvido da alma é vê-lo com o olho do entendimento passivo de que falamos".

Os elementos doutrinais já nos são, em parte, conhecidos; o ouvido da alma é duplo: o sensitivo, pelo qual entram as verdades de fé propostas na revelação, e o espiritual, pelo qual entra o que contêm as proposições, ou seja, a "substância apreendida", a forma divina intencionalmente notificada ao entendimento. O ouvido espeiritual [50] não é outra coisa senão o ato intelectual do entendimento possível. Que eqüivale, em nosso caso, ao feito do conhecimento místico.

Porém aí nos aparece uma grave barreira, porque não se pode ultrapassar o limite específico da fé:

"E não se há de pensar que este conhecimento da alma , por ser substância despojada, como dissemos, seja a perfeita e clara fruição como no céu; porque, embora seja despojada de acidentes, não é visão clara, mas obscura, porque é contemplação, a qual é nesta vida, como diz São Dionísio, 'raio de trevas'; e assim podemos dizer que é um raio e imagem de fruição, porquanto é concedida ao entendimento, onde reside a fruição. Esta substância apreendida, que aqui chama a alma 'sussurro', é 'os olhos desejados', que, descobrindo o Amado, disse - porque não os podia sofrer o sentido -:

Aparta-os, Amado!"

Assim determina finalmente a natureza da "substância despojada" que o entendimento goza na contemplação. Está, certamente, "despojada de acidentes"; não obstante, não é clara. Estamos ainda no caminho da união, peregrinando à Pátria, onde esperamos Ter a visão clara, a fruição plena, a consecução de Deus amado e entendido. O máximo que o entendimento pode conseguir na presente vida, nunca ultrapassa os limites da fé. É verdade que a fé pode conseguir gradualmente um modo mais puro de aderir o entendimento às verdades reveladas - este é o propósito de seu trabalho na noite ativa do espírito, segundo já nos consta -, porém nunca alcançará a clara intuição da Divindade. Isto excede os limites do caminho, pelo qual se caminha em fé. E a fé não chega a tanto.

Que é, por conseguinte, a "substância apreendida" que o entendimento possível goza na contemplação? Tendo em consideração tudo o que dissemos na exegese do texto, não parece ser outra coisa senão algo que transborda ao entendimento possível da satisfação fruitiva do amor na experiência das perfeições divinas. Esse gozo transborda ao entendimento que já está purificado, desvinculado e livre do modo natural de conhecer. E a este propósito devemos recordar o que diz em Subida II 14,8 acerca da luz da fé, que alcança sua perfeição quando não tropeça nos obstáculos das formas particulares e distintas, radicalmente naturais; isto é, quando, por outra vertente, o entendimento humano, fortalecido pela fé, participa da luz do conhecimento divino. Porém esta luz, enquanto participada na fé, não consegue a forma divina intencionalmente clara.

Harmonizados ambos os extremos, poderíamos afirmar que a "substância apreendida" de que goza o entendimento na contemplação é a satisfação e fruição que transborda do amor ao entendimento possível, encontrando-o sumamente preparado pela fé; isto é, em ausência atual de formas intencionalmente naturais, pelo que a luz do divino conhecimento pode ser cabalmente participada.

Encaixados ambos os extremos, ou seja, a redundância do gozo e a perfeita participação da luz divina - celebra-se o "casamento espiritual" no final ou passada já a noite passiva do espírito, quando o grau de participação da 'luz excessiva' chega à par da Pátria (veja Noite Escura II 5) -, é possível entender a índole da "substância apreendida" dentro das fronteiras da fé; na obscuridade, portanto. E, talvez, neste sentido seja mais fruição intelectual do que alcance do objetivo divino. A fruição transborda do amor, o entendimento não se trava com os obstáculos dos sentidos; então, sob a moção do Espírito Santo, a participação da luz divina cresce a um grau muito alto, no qual o entendimento possível não goza senão em Deus, embora sem clara possessão, apesar de não costumar gozar sem se apoderar intencionalmente do objeto.

Como devemos entender isto? A fruição, sim, pode redundar do amor da vontade. Porém a "substância apreendida" é algo específico do entendimento, e não vemos como a vontade pode ultrapassa-lo em sua qualidade de "substância apreendida e despojada", que é a meta própria do trabalho do entendimento.

Para resolver esta dificuldade devemos ter em conta que, como consta da análise de Cântico 11,4, a "substância apreendida" se impõe de modo certamente intencional ao entendimento, embora encoberta nas proposições reveladas da fé.

O importante, afinal, é que entendimento e fé constituem não duas realidades justapostas, mas unidade de ação. Que a fé seja obscura provém de duas causas: em primeiro lugar, da natureza própria do entendimento, que em seu estado presente, enquanto o homem peregrina a Deus, não é 'meio' proporcional para chegar a sua propriedade divina; em segundo lugar, porque a operação do entendimento nesta vida depende dos sentidos. Contudo, a fé aporta ao entendimento certa capacidade ordenada ao conhecimento das verdades sobrenaturais: dá-lhe uma potência que naturalmente não tem e ao mesmo tempo transforma e troca de algum modo sua operação natural, colocando-o na via da abnegação ou 'noite' dos sentidos. Troca modal, não essencial, já que não destroi sua natureza. A abnegação se ordena precisamente a faze-lo mais proporcional ao objeto divino; a fé, virtude intelectiva, é, segundo nos disse tantas vezes o Doutor Místico, o meio de união do entendimento com Deus. Se exige que o entendimento se despoje de algumas modalidades próprias, ordena-se a essa união. As noites, ativas e passivas, vão preparando o entendimento e a própria fé para penetrar mis profundamente em Deus. Nelas, sobretudo nas passivas, o entendimento pode chegar a tal grau de abnegação ou purificação - como se percebe na passagem da meditação para a contemplação -, que em sua adesão às verdades reveladas não lhe fica já, interpostas, nem filetes de imagens dos sentidos ou formas intencionais. Esse fenômeno é produzido do "vazio e trevas" intelectuais de que o Doutor Místico fala em Subida II 6.

É quando a "substância apreendida", segundo o que induzimos de Cântico 11,4, ainda permanecendo 'obscura', não apresenta já alguma limitação natural por parte do entendimento. Que sucede, pois? Talvez tenhamos chegado ao ponto de compreender melhor a "substância apreendida" na contemplação. O papel da fé é decisivo tanto na experiência da união como no "toque": o entendimento está em pura fé, e conseguiu por ela tal pureza atual, que se liberou da todas as formas intencionais naturais. È claro que isto leva consigo a suspensão da sua atividade natural. Porém, por outro lado, a fé o faz mais potente para a adesão essencial revelada. Em suma: ao não reduzir as verdades reveladas a formas intencionais particulares e distintas mediante o trabalho do entendimento agente, fica livre a passagem para a profunda impressão da "substância apreendida". E então o entendimento possível a recebe, e, recebendo-a, sente a fruição redundante do toque amoroso.

Em conseqüência, pode o Doutor Místico afirmar que, quando tudo isto chega ao seu ponto, o entendimento possível goza a "substância apreendida". É certo que a fruição não deriva de haver conseguido a forma divina; a fruição não é própria do entendimento; a recebe emprestada. Caberia a possibilidade de dizer que o entendimento participa veementemente da fruição do amor. Essa fruição é acompanhada no entendimento de tal pureza psicológica, que em sua adesão às verdades reveladas já não se mistura nenhuma forma intencional radicalmente natural. Se as verdades reveladas realmente contêm em si a forma intencional divina - embora não de um modo claro e visto, mas obscuro -, segue-se que o entendimento consegue, em sua fruição emprestada, essa forma e que a ela se une. Então alcança o descanso próprio, já que não a fruição. O descanso, porque cessou a fadiga do entendimento agente [51]; não a fruição, porque não chegou a conseguir a forma clara do objeto. Com efeito, São João da Cruz diz que, ainda que conseguida dentro dos limites da fé, produz um elevadíssimo gozo, redundante da experiência do 'toque' amoroso.

A explicação anterior não pretende ser apodíctica e de todo evidente, já que não se acha explicitamente no texto sanjoanista. Nós a induzimos baseados na exegese dos textos que de uma forma ou de outra se referem à fé e ilustram seus vários aspectos. Nesta perspectiva, nossa interpretação da "substância apreendida" é viável.

E com isto poderíamos concluir a análise dos elementos que Cântico nos oferece sobre a fé. Em 14, 10 lemos:

"[...] pôs-se diante de mim alguém cujo rosto não conhecia, e diante de meus olhos era imagem. Este que diz que esteve era Deus, que se comunicava daquela maneira. E disse que não conhecia seu rosto para dar a entender que em tal comunicação e visão, embora altíssima, não se conhece nem se vê o rosto e a essência de Deus. Porém diz que era imagem diante de seus olhos porque, como dissemos, aquela inteligência, escondida, era altíssima, como imagem e rosto de Deus; contudo não era essencialmente a visão de Deus".

Eis aqui, em síntese, toda a doutrina. Podemos descobrir aí também a contínua presença do Amado, que a alma atesta experimentar (Cântico 11,5).

Só resta, para rematar a análise de Cântico, examinar uma objeção que o Doutor Místico põe sobre o tapete, e, ato seguido, ele mesmo a desfaz.

Está em Cântico 17,6. E diz assim: a vontade não pode amar se antes não lhe abre o caminho o entendimento.

Resposta do Doutor Místico: No plano natural é certo que a vontade não pode amar se antes o entendimento não entende, porque não se amo o que não se conhece; mas no plano sobrenatural não sucede assim, já que Deus pode infundir-nos amor e aumenta-lo sem aumentar a clara inteligência do objeto. Poderíamos ditar muitos espirituais, constatando que

"pode-se entender pouco e amar muito, e pode-se entender muito e amar pouco [...]; basta a fé infusa como ciência de entendimento, mediante a qual Deus infunde a caridade e a aumenta, e o ato dela, que é amar mais, ainda que não se aumente a notícia, como dissemos".

Pelo contexto vê-se que a intensificação da experiência amorosa não leva consigo uma intensificação paralela da experiência cognitiva. À caridade basta o conhecimento obscuro de fé nesta vida.

Quanto a que o conhecimento não se experimente, responde o santo Doutor: Não estamos em um plano natural, sujeito a medidas e regras estritamente psicológicas; estamos em um plano sobrenatural, no plano das graças infusas, e, por conseguinte, não se pode aplicar, sem nem menos, os critérios psicológicos naturais para dar conta e razão da experiência mística. O primeiro critério para entende-la é que tudo é graça nesta ordem sobrenatural e conseqüência da graça. Uma coisa é absolutamente certa: o aumento atual do amor supõe a necessidade da fé no entendimento; mais ainda: uma fé em grau alto e ativo, que intervém no aumento da caridade, segundo nos ensina São João da Cruz em Subida III 1,1 e em Chama 2,24; porém a atual experiência do amor na vontade não supõe necessariamente a experiência da "notícia" no entendimento. Já sabemos por que: tanto a experiência como a inteligência dependem da moção do Espírito Santo. Por conseguinte, ele é quem as regula. Ademais, tal experiência denota passividade, ou seja, capacidade receptiva adequada por parte do sujeito. Vemos isto no caso da noite, quando tentamos saber em que instante ou período do caminho cruzam-se ou coincidem elementos experimentais. De qualquer modo, não cabe aplicar critérios ou regras meramente psicológicas, pois a realidade está acima de seu alcance. A alma se encaminha à união sob a direção de um magistério interior.

As reflexões anteriores nos levam incidentalmente pela mão a precisar algo sobre a índole própria da fé. A união essencial do entendimento com Deus é obra da fé. Portanto, a fé é absolutamente necessária para alcançar a união e a transformação mística, que imediata e diretamente se produzem e desenvolvem na vontade. Para isto é de todo necessário que o entendimento esteja em fé.

A mensagem de Cântico nos repete, com novas irisações, a doutrina que egregiamente nos ensinou Subida, e que pestanejava já o fundamento pórtico do capítulo 9 do livro II:

"Como a fé é o meio próximo e proporcional do entendimento para a alma possa chegar à divina união de amor".