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A última parte da magna tetralogia de São João da Cruz dedica-se
a celebrar a suprema união mística: o matrimônio espiritual
[52]. Achamos em Chama Viva de Amor muitos elementos
doutrinais repetidos ou resumidos de Subida e de Noite Escura;
também, a doutrina da noite, a doutrina da passagem da meditação
para a contemplação. Isto acontece principalmente em Chama 3.
Portanto, será fácil reencontrar a profunda teologia sanjoanista da
fé. Por exemplo, em Chama 3,48 nos diz:
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"Deus, a quem o entendimento se encaminha, excede ao próprio
entendimento; e assim é incompreensível e inacessível ao
entendimento; portanto, quando o entendimento vai entendendo, não
vai se aproximando de Deus, antes vai se afastando. E assim, antes
se há de afastar o entendimento de si mesmo e de sua inteligência para
se aproximar de Deus, caminhando na fé, crendo e não entendendo.
E dessa forma o entendimento chega à perfeição, porque pela fé e
não por outro meio se une a Deus [...]. E o ir adiante o
entendimento é caminhar cada vez mais na fé, e assim é caminhar mais
na obscuridade, porque a fé é trevas para o entendimento".
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E, portanto, é necessário
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"que não se empregue em inteligências distintas".
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Poderíamos transcrever outros parágrafos que nos repetem ou resumem
idéias que já conhecemos. Em definitivo, encontramo-nos novamente
diante da tese de base do Doutor Místico: a fé é meio, a fé é
obscura, a fé é abnegação de qualquer "inteligência distinta".
Chama supõe tudo isto e não acrescenta muito mais. Porém, à
parte destes resumos doutrinais, que agora emergem luminosos em uma
atmosfera nova, Chama contém uma esplêndida e muito sutil doutrina
sobre a união transformadora. Esta doutrina, eminentemente
trinitária, não pretendo expor aqui. Não obstante, faremos
algumas anotações pertinentes para saber em que ponto nos achamos.
A sistematização da mensagem doutrinal da Chama foi feita pelo Pe.
Gabriel de Santa Maria Madalena [53]. Segundo ele, a união
transformadora, eixo de Chama, consiste no pleno desenvolvimento da
graça, das virtudes e dos dons; enumera logo os elementos que o
integram: "o amor perfeito, diz, é o que merece a plenitude da
graça. Isto parece trazer para o Santo a confirmação no estado de
graça..., a paz e sossego da alma..., a subordinação total da
parte sensitiva à intelectiva e desta a Deus; subordinação que é
conquista das virtudes perfeitas. Em continuação vem a plenitude dos
dons e da moção quase contínua correspondente; segue-se a isto que
Deus se constituiu já em princípio e fim de todas as ações. Logo
explode o sentimento habitual de amor exacerbado.
Esta experiência divina, que se caracteriza ordinariamente por um
sentimento de incêndio, identifica-se em certos instantes com o toque
amoroso, que é o ápice, a plenitude da teologia mística".
Na realidade, já vimos isto na análise de Cântico.
Certamente, ninguém melhor que o Doutor Místico para falar deste
tema. Mas os textos são incontáveis, e a seleção não é fácil.
Em Chama 3,80 diz:
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"Esta é a grande satisfação da alma, ver que dá a Deus mais do
que ela própria é e vale em si mesma, com aquela mesma luz divina e
calor divino que ela recebe de Deus; isto se realiza na outra vida por
meio da luz da glória, e nesta por meio da fé muito esclarecida".
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Que é isto que a alma dá a Deus por esta 'fé muito esclarecida'?
Talvez a resposta tenha sido antecipada em Subida II 29,6 onde
se refere ao impulso dos dons do Espírito Santo. Porém agora
chegou ao maior nível possível nesta vida; escreve o Doutor
Místico em Chama 1,4: "neste estado, a alma não pode fazer ato
algum, porque é o Espírito Santo que produz todos e movendo-a a
agir; e por isso, todos os atos dela são divinos, pois a alma é
feita e movida por Deus". Sem dúvida, fala de uma moção imediata
e sobrenatural. Pouco antes havia dito: "esta é a operação do
Espírito Santo na alma transformada em amor, que os atos interiores
que produz são como labaredas, que são inflamações de amor, unida
às quais a vontade da alma ama de modo elevadíssimo, feita um só
amor com aquela chama" (Chama 1,3). Os textos citados
esclarecem suficientemente o que é a 'fé muito esclarecida'.
Porém voltamos a perguntar: Que dá a alma a Deus? O Doutor
Místico esclarece:
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"[...] sendo ela sombra de Deus por meio desta transformação
substancial, age ela em Deus por Deus do mesmo modo que Ele age nela
por si mesmo, do modo que Ele age, porque a vontade dos dois é uma
só, e assim a operação de Deus e a dela é uma só. Logo, como
Deus se dá a ela com livre e graciosa vontade, assim também ela,
tendo a vontade tanto mais livre e generosa quanto mais unida a Deus,
faz o dom de Deus ao mesmo Deus em Deus, e esta dádiva da alma a
Deus é total e verdadeira. Porque a alma vê então que Deus
verdadeiramente é seu, e que ela o possui com possessão
hereditária, com direito de propriedade, como filha adotiva de
Deus, pela graça concedida por Ele ao dar-se a si mesmo a ela, e
que, como coisa sua, o pode dar e comunicar a quem ela quiser, por
sua livre vontade; assim a alma o dá a seu querido, que é o mesmo
Deus que se deu a ela, e nisto paga a Deus tudo o que lhe deve,
porquanto voluntariamente lhe dá tanto quanto dele recebe".
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Chama 3, 78
Toda esta concepção relacional, filial e conjugal ao mesmo tempo,
se fundamenta sempre em um duplo elemento: a comunicação da graça e
a força do amor. A alma se faz "Deus por participação", e
então possui participativamente a Deus, e retribui à vontade, em
recíproco amor, o que do Amado recebeu: o dom de Deus: "da a
Deus o próprio Deus em Deus". O sopro do Espírito Santo é
quase contínuo no estado de transformação.
De fato, quem dá é a alma, incendiada pelo sumo amor; já unida a
Deus plenamente, não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz a
vontade divina. Por conseguinte, por todo seu ser não corre mais do
que amor, e só se ocupa em amar uma vez que chegou à perfeição de
união transformadora, igual à vontade divina; amar a Deus,
devolvendo-lhe amor por amor - o amor participado ou recebido - de
modo divino, sob a moção do Espírito Santo.
Estamos dentro da mística 'trinitária', que já havíamos
vislumbrado em Cântico:
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"[...] o Espírito Santo [...] com aquela sua aspiração
divina levanta a alma com grande sublimidade e a informa e habilita para
que ela aspire em Deus a mesma aspiração de amor que o Pai aspira no
Filho, e o Filho no Pai, e esta aspiração é o próprio
Espírito Santo que também aspira a alma, no Pai e no Filho, na
dita transformação, para uni-la consigo".
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São os vértices, cujos fundamentos procuramos encontrar analisando a
doutrina de São João da Cruz primeiro sobre a participação, e
depois sobre a moção do Espírito Santo. Não vamos tornar a
explicar, mas somente recordaremos, para que fique mais claro o que é
e como atua na alma a "fé muito esclarecida". Mais ainda: a "fé
muito esclarecida", além do que já dissemos, faz com que veja o que
faz e tenha consciência do que acontece.
Todas estas afirmações deixarão de nos surpreender se entendermos
profundamente a doutrina de São João da Cruz sobre a fé, sobre
sua elevação essencial. Sobre a luz divina da qual se participa
nela; em fim, sobre a "substância apreendida".
Não obstante, devemos observar novamente que aquilo que ensina em
Chama, supõe sua doutrina explicada anteriormente sobre a fé;
doutrina posta aqui sob nova luz, embora insistindo nos velhos
princípios.
Neles se apoia a seguinte passagem textual:
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"[...] o entendimento, que antes desta união entendia
naturalmente com a força e o vigor da sua luz natural, por meio dos
sentidos corporais, é agora movido e informado por outro princípio
mais alto que é a luz sobrenatural de Deus, deixando a parte os
sentidos, e assim trocou-se em divino, porque, pela união, seu
entendimento e o de Deus é todo um só".
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As frases transcritas foram tiradas do texto maior, no qual descreve
detalhadamente a união, consumada na transformação do entendimento,
vontade e memória. Conserva aqui a divisão tripartida que já
conhecemos. Mas, se compararmos este texto com o de Noite Escura
II 4,2, que já submetemos a análise, o de Chama é muito mais
forte e expressivo; na realidade, anuncia a união consumada e não
só sua dolorosa preparação através da noite purificadora. Porém,
estamos ainda no caminho, e por isso na área da fé. Devemos
recordar para não perder de vista as suculentíssimas palavras: "pela
união seu entendimento e o de Deus é todo um só". E talvez não
seja supérfluo recordar também o que diz me Subida II 29,6
acerca da moção do Espírito Santo e o que declara em Cântico
sobre a "substância apreendida", que o entendimento possível
experimenta e na qual goza e descansa.
Citemos, por último, a seguinte passagem, que nos explica a
metáfora das 'cavernas':
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"Estas cavernas - diz - são as potências da alma: memória
entendimento e vontade; as quais são tanto mais profundas quanto mais
capazes são de grandes bens, pois não se enchem com menos que o
infinito. Pelo que elas padecem quando estão vazias, podemos
avaliar, de certo modo, quanto gozam e se deleitam quando estão
cheias de Deus, pois por um contrário se esclarece o outro. Quanto
ao primeiro, notemos que estas cavernas das potências, quando não
estão vazias, e purificadas, e limpas de toda afeição de criatura,
não sentem o grande vazio de sua profunda capacidade".
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Que profundidades do espírito humano! Capacidade imensa das
potências superiores, capacidade do infinito: eis aí a raiz e o
fundamento metafísico que serve de sustento às virtudes teologais!
Porém é necessário, para que se dê essa união com o Infinito,
que primeiro a almase purifique e se despoje de todo o finito,
limitado, particular e distinto. A abertura da alma ao Infinito
constitui a tarefa peculiar das virtudes teologais que, ao mesmo
tempo, enchem a alma da Divindade participada.
A doutrina fundamental do Doutor Místico sobre as virtudes
teologais, exposta em Subida II 6, corresponde a este conceito das
potências: devem se pôr em 'vazio e trevas' para unir a alma a
Deus. A purificação se ordena à união. E nela está se
personificando o princípio da Subida I 4, que afirma a
impossibilidade de que duas formas totalmente diferentes coexistam ao
mesmo tempo em um sujeito.
O entendimento é abismo profundo, "caverna" sedenta:
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"[...] seu vazio é sede de Deus, e esta é tão grande quando o
entendimento está disposto, que Davi a compara à do cervo
[...]; e esta sede é das águas da sabedoria de Deus, que é o
objeto do entendimento".
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