SÍNTESE


1. RESUMO DOUTRINAL.

Nesta parte queremos oferecer, em uma série escalonada de conclusões, os resultados das análises precedentes. E, antes de tudo, devemos determinar bem sob que ponto de vista São João da Cruz considerou a fé em seus escritos. Porque a fé é um tema que se aborda de um modo na teologia fundamental, de outro na teologia dogmática e em teologia moral, de outro na psicologia da religião e de outro, em fim, na teologia mística.

O Doutor Místico o trata do tema da fé principalmente do ponto de vista da teologia mística.

1. Nunca se estabelece nas obras de São João da Cruz a questão da fé informe e isolada; pelo contrário, sua doutrina se refere sempre à fé formada, à fé que vive pela caridade. Isto observamos já em Subida I 2,3 e persiste ao longo de toda a tetralogia sanjoanista: fala da fé viva, da fé que é meio de união com Deus, da fé em conexão e em subordinação à caridade.

É o primeiro dado, e convém sublinhá-lo.

2. Tampouco insiste São João da Cruz na dimensão da fé como assentimento às verdades reveladas, baseado na autoridade de quem revela. É verdade que a palavra "consentimento" aparece em Subida II 3; não obstante, essa dimensão tão genuína da fé não constitui objeto de particular estudo para o Doutor Místico. Simplesmente, a supõe; e nota-se pelo próprio uso de "consentimento" e pelo que, com enérgica precisão, diz sobre a autoridade ministerial da Igreja para fixar as verdades reveladas; mais ainda, influindo, ao faze-lo, no ato de fé de todo crente (ver Subida II 27,4).

3. O principal aspecto da fé que São João da Cruz considera é o de "meio de união da alma com Deus". Ou mais exatamente: "meio próprio e adequado do entendimento para unir a alma a Deus em amor". Sob este prisma, a fé é comparada à visão, uma vez que compete a ela unir plenamente o entendimento com Deus na bem-aventurança do céu. Compara-se a fé à visão, e, ao mesmo tempo se contrapõe, porque a fé versa sobre o "não visto". Esta condição essencial da fé - possibilidade de comparação com a visão, contraste com ela - é, talvez, o mais típico do pensamento de São João da Cruz, que parece mover-se sempre na mesma linha: a visão consiste na união perfeita do entendimento com Deus; a fé conduz o entendimento à união perfeita nesta vida.

Eis aqui, pois, o ponto dinâmico - a tese, atreveríamos a dizer - que o Doutor Místico trata de aprofundar e explicar. E não é preciso acrescentar que esse é o ponto próprio de reflexão para a teologia mística.

4. Toda sua doutrina gira em torno desse ponto ou dimensão da fé e se desenvolve de maneira consistente e orgânica, partindo e se apoiando, com estrita lógica, em um princípio que é a base geral de todo o sistema místico de São João da Cruz. É o princípio que estabelece em Subida II 3 e 8, e que designa com a expressão "semelhança essencial".

Entre a criatura e Deus não há semelhança essencial, porque a essência divina é infinitamente distante da essência de qualquer criatura, por muito perfeita que esta seja. Desta afirmação fundamental brota imediatamente o princípio fundamental de todo o sistema místico de São João da Cruz: nenhuma criatura pode por si mesma ser meio proporcional para a união com Deus, porque lhe falta a "proporção de semelhança", absolutamente necessária para isto.

Estes dois princípios - o princípio metafísico da "semelhança essencial" e o princípio, mais prático, do "meio proporcional" para a união, que emerge do anterior - constituem a base do sistema e se estendem virtualmente até as últimas conclusões teóricas e decisões práticas da teologia mística de São João da Cruz. Sobre essa base está edificada toda sua doutrina acerca da fé, elevando-a às alturas místicas.

5. Afirma, pois, que a fé é "meio proporcional" - também o chama "próprio", "próximo", "acomodado", "adequado" e "legítimo" - para a união do entendimento com Deus.

Com esta afirmação, e em relação aos princípios anteriormente indicados, mostra seu valor ontológico e coloca os alicerces da dimensão dinâmica que vai expor:

A. Valor ontológico - Na noção de meio proporcional para a união com Deus se inclui necessariamente, segundo São João da Cruz, a "proporção de semelhança" com a essência divina; dessa proporção carecem todas as criaturas, consideradas em sua própria natureza. A fé, ao contrário, ao possuir em si a "proporção de semelhança" em relação a Deus, situa-se acima da linha natural de qualquer criatura, ainda que sejam as mais perfeitas.

Esta radical elevação da fé sobre qualquer natureza criada é confirmada pelo Doutor Místico em Subida II 5 quando fala da união, para a qual a fé serve de meio proporcional; trata-se de uma união sobrenatural, de uma união consistente na comunicação, por parte de Deus, de sua própria divindade, e, por parte da alma, na participação dessa divindade pela graça e pela caridade. Em virtude do amor, a alma é capaz de elevar-se até a união transformadora, na qual se torna realmente "Deus por participação".

Temos, portanto, que a fé, meio proporcional dessa união, é algo radicalmente sobrenatural. Uma ulterior precisão será feita mais abaixo.

B. Fundamento próprio da dimensão dinâmica da fé - Na "semelhança" com Deus, negada a toda criatura, toca a própria essência da fé, que é "semelhança essencial". O conceito de semelhança se move entre essências, separando cuidadosamente a essência divina da essência de qualquer criatura, e, ao contrário, ao acomoda-la à fé, está tocando em sua natureza íntima. Esta é a razão que faz possível nosso estudo sobre A natureza da fé segundo São João da Cruz.

6. Nesta semelhança essencial em relação a Deus fundamenta a "proporção de semelhança" que atribui à fé; e isto é também o motivo imediato que justifica dizer que a fé é "meio proporcional" para a união com Deus.

Por causa da semelhança essencial com Deus, afirma-se a radical sobrenaturalidade da fé; por causa da proporção na semelhança, afirma-se que a fé é meio proporcional de união.

O entendimento é que o se 'proporciona' a Deus, em virtude da "semelhança essencial" com Deus, que é atributo próprio da fé.

Tal é a trajetória ascendente partindo do princípio metafísico da "semelhança essencial" ao princípio de "meio proporcional" para a união. Pois bem, este meio necessariamente postula um ponto de partida (terminus a quo) e um ponto de chegada (terminus ad quem), entre os quais a fé desenvolve seu dinamismo.

7. Se admitimos que a Divindade é proporcional ao entendimento pela fé, podemos imediatamente perguntar como se deve entender esta proporção. O Doutor Místico nos responde: Esta proporção é de índole tal, que torna possível à fé a união do entendimento com Deus; ou mais exatamente: a fé é apta para desempenhar a função de meio próprio e proporcional da união do entendimento com Deus. Apta por sua 'semelhança essencial'. Por conseguinte, tem que reduzir a semelhança, de alguma maneira, a um plano intencional.

Mas, se perguntará então: Para São João da Cruz, que significa unir o entendimento a algum objeto? A resposta expressa é dada em Subida III 12,4 quando diz que o entendimento se une com as realidades objetivas ao capturar sua essência, com a ajuda dos sentidos, de um modo intencional; isto é, quando se apodera da essência de um modo inteligível. Isto é o que, nas obras de São João da Cruz, é chamado de "substância apreendida".

8. Do que foi dito fica claro que o entendimento se une a Deus plenamente pela visão beatífica da essência divina, porque então a possui intencionalmente como "substância apreendida". Esta afirmação é constante no magistério do Doutor Místico. Com efeito, atribui à fé o papel de meio próprio da união do entendimento com Deus nesta vida por razão essencial idêntica, embora não com a mesma perfeição nem da mesma maneira. A passagem de Subida II 24,4 diz a este respeito:

"De algum modo, esta notícia obscura amorosa que é a fé serve nesta vida para a divina união, como o esplendor da glória serve, na outra, de meio para a clara visão de Deus".

O texto citado suscita de imediato uma questão: não fala aí da fé isolada, mas da fé enquanto intervém na contemplação.

Para responder à questão colocada é necessário entrar antes na questão da natureza da fé. Em outras palavras: é necessário averiguar como e em que sentido a fé constitui o meio próprio de união nesta vida. Assim, toda a investigação sobre a natureza da fé segundo São João da Cruz deve ser incluída na área de sua função própria: a de servir de meio de união do entendimento com Deus. Ou seja, sua natureza e sua definição dependerão de sua função unitiva.

9. Ao comparar a fé à visão enquanto meio de união do entendimento com Deus, parte-se de uma distinção básica: Deus visto e Deus crido.

Deus 'visto' no céu expressa o definitivo e perfeito gozo da essência divina por parte do entendimento; Deus 'crido', ao contrário, exclui ou nega esse claro êxito. Porém, para poder dizer que o entendimento se une a um objeto é necessário esse êxito, como consta em Subida III 13,4 . Como, então, podemos afirmar que a fé é meio próprio de união, se não consegue a clara visão intencional da essência divina, se não a converte em "substância apreendida"?

Responde o santo Doutor: Na fé, o entendimento alcança de fato a essência divina de um modo intencional, embora sem claridade. Por conseguinte, a fé é essencialmente meio de união, se bem que imperfeito.

Poderíamos perguntar a seguir: Como?

10. A fé é meio de união do entendimento nesta vida da mesma forma que a visão no céu, porque na fé concorrem essencialmente os mesmos elementos que na visão; a saber, a luz divina infusa e o objeto divino, que nessa luz se notifica e une ao entendimento. Se, como recorda Subida II 3,2, "ab obiecto et potentia paritur notitia" (do objeto presente e da potência nasce na alma a notícia), Por que não brota da fé? Tudo está estribado na incapacidade do sujeito para captá-la intencionalmente. E, ao tocar neste ponto, tocamos diretamente na natureza do sujeito (o entendimento) e surge o problema da fé , que é, para São João da Cruz, uma virtude intelectual, um hábito seu; o entendimento comporta uma incapacidade natural em relação ao objeto divino. Mas pela fé, como dissemos antes, o entendimento da alma viadora adquire uma 'proporção essencial' à Divindade; contudo, esta proporção, por se enraizar no entendimento em seu estado atual, se acopla intimamente a sua índole natural. E, por conseguinte, a fé, enquanto meio proporcional de união, inclui uma relação ao ponto terminal (terminus ad quem) dessa união e outra ao ponto de partida (terminus a quo).

11. Que ensina, pois, em relação ao ponto de partida (terminus a quo) da união?

A. O entendimento é, segundo a doutrina de São João da Cruz, uma das tres potências espirituais da alma, as quais estão abertas a Deus e são capazes de se comunicar com Deus enquanto Deus e participar dele. Portanto, também o entendimento, por ser potência espiritual, está aberto ao infinito. Isto é dito expressamente pelo doutor Místico em Chama 3,18-19. Mais ainda: não se satisfaz nem sossega senão com o infinito. Daí seu desejo natural, sua abertura para o Objeto divino. Ou, mais propriamente, ao gozo intencional da essência divina.

B. Por outro lado, o entendimento não pode, no estado atual de união da alma com o corpo, trabalhar sem a ajuda dos sentidos. A alma se infunde no corpo como uma tábua rasa, que se vai enchendo de formas provenientes dos sentidos, como diz o clássico axioma invocado em Subida I 3,3. Ao receber essas impressões dadas pelos sentidos, o entendimento realiza uma tarefa própria: enquanto ativo, abstrai a essência inteligível do objeto que os sentidos lhe apresentam; enquanto passivo, a recebe como "substância apreendida". Porém, nesta operação de conhecer, o entendimento é informado intencionalmente por espécies limitadas, particulares e distintas, com as quais alcança a perfeição natural do conhecimento, desfrutando com clareza a "substância apreendida".

Juntamente, o entendimento, enquanto potência espiritual, está aberto à recepção da forma ilimitada e infinita. Não obstante, essa capacidade e esse anseio natural se vê dificultado e impedido pelo modo de entender - através dos sentidos - ao qual está ligado enquanto durar o estado de união ao corpo nesta vida.

12. O entendimento tem, pois, tendência a unir-se a Deus; essa meta de união com a forma ilimitada ou infinita é alcançada própria e perfeitamente na visão, o que requer mudança de situação no sujeito; isto é, só depois da separação da alma e do corpo é possível; a mesma meta porém ,consegue, de algum modo, sem mudar sua atual condição natural, mediante a fé. Este ofício da fé é, em definitivo, preparação para a perfeita união de visão.

De fato, por este conceito de fé que o Doutor Místico nos propõe em Subida II 6 parece que a tarefa da fé se desenvolve em duas direções: por um lado, se ocupa de unir o entendimento com Deus; por outro lado, de prepará-lo causando nele "vazio e obscuridade". Nessa dupla transcendência da fé aparece expresso esplendidamente seu labor próprio e necessário para conseguir que o entendimento se una ao objeto divino. A primeira é ontológica, segundo as razões apontadas em Subida II 8,3, já que se exige uma força capaz de ultrapassar a ordem natural para adentrar na ordem sobrenatural da essência divina. É o que faz a fé em virtude de seu ser, isto é, por sua radical sobrenaturalidade ontológica. A segunda refere-se imediatamente ao sujeito da fé, e, portanto, é psicológica , e postula uma transformação no modo natural do trabalho do entendimento; a saber, que se feche aos sentidos e abra sua capacidade espiritual à forma infinita. Este último é conseqüência do princípio fundamental do sistema místico de São João da Cruz, segundo o estabelecido em Subida I 4: duas formas contrárias não podem coexistir simultaneamente no mesmo sujeito. Se a forma natural criada e a forma divina são, segundo afirma o Doutor Místico, totalmente contrárias, por causa da "semelhança essencial" - que é impossível encontrar-se em relação a Deus, nas criaturas -, segue-se que não podem coexistir uma e outra ao mesmo tempo no entendimento. A impossibilidade se refere ao aspecto psicológico, e neste sentido postula-se a segunda transcendência. Com a infusão da fé se obtém sua realidade ontológica e se vislumbra seu primeiro ofício; seu dinamismo psicológico posterior se desenvolverá ao longo de todo o caminho da união, preparando incessantemente a alma para a visão beatífica de Deus e detendo-se apenas nos momentos de gradual contemplação, que já são vislumbres passageiros da aurora beatífica.

13. Da primeira tarefa da fé, que consiste na união do entendimento com Deus - no sentido metafísico mais que no psicológico -, se deduz a idéia de sua natureza, ou ao menos de sua radical sobrenaturalidade.

Expliquemos como chegamos até aqui.

Em primeiro lugar, a essência divina é apresentada ao entendimento nas verdades reveladas, que assumem a forma de palavras, e assim, "pelo ouvido" chegam aos sentidos, e dos sentidos passam ao entendimento. Em uma segunda fase, o entendimento ativo opera sobre elas a seu modo costumeiro, abstraindo sua essência inteligível para que o entendimento passivo as assimile como "substância apreendida" e, alcançada a intelecção, possa descansar e gozar naturalmente.

De fato, este processo, ao qual o entendimento está naturalmente acostumado, resulta impossível no caso presente. Os sentidos falham ao tentar a imagem do objeto, porque a realidade contida nas verdades reveladas resulta aos sentidos absolutamente inacessível. E assim, falta matéria ao entendimento ativo para trabalhar, com o inconveniente ou a ameaça de que as verdades reveladas se tornem, em relação a ele, meros sons e nomes inúteis de um objeto ignorado.

Porém, para que não ocorra isto, a fé se infunde no entendimento, e com a fé lhe chega a luz excessiva, pela qual a alma é atraída às verdades reveladas e se adere a elas.

É este o processo descrito em Subida II 3.

Trataremos agora de explicar como se realiza essa atração e essa união.

Em primeiro lugar, as verdades reveladas, que chegam ao entendimento "pelo ouvido" e em forma conceitual expressa em palavras, contêm em si a essência divina enquanto ser intencional, segundo Cântico 11,4; o ser intencional eqüivale a objeto cognoscível, que, com a ajuda dos sentidos, é a matéria na qual o entendimento ativo trabalha ordenado a sua intelecção. É assim que a essência divina se apresenta nas verdades reveladas ao entendimento do homem viador, expressas em palavras. Estes conceitos e estas palavras que passam pelos sentidos - 'ex auditu' - contêm a essência divina como objeto próprio da intelecção, como "substância apreendida".

Mas, por outro lado, segundo já expusemos, o entendimento humano não é capaz por sua própria força de penetrar a "substância apreendida", o objeto: as verdades reveladas envoltas em palavras. Necessita da "luz excessiva" da fé para aderir-se a elas. Segundo os textos sanjoanistas analisados, a "luz excessiva" é a luz do divino conhecimento participada pelo entendimento. Em suma: o que o entendimento não é capaz de penetrar com a luz natural, o é com a luz sobrenatural da fé, pela qual "Deus se manifesta à alma".

Portanto, a luz infusa permite e faz, geralmente falando, com que o entendimento adira às verdades reveladas. Isto é, adira às proposições conceituais da fé, nas quais está intencionalmente contida e escondida a 'substância' divina. E assim, pode-se dizer e se diz que o entendimento, nesta adesão às verdades reveladas da fé, se une à essência divina contida nelas, chega à "substância apreendida".

Este último é certo, se nos ativermos às premissas do Doutor Místico. E aduzirmos três razões em apoio:

1. O entendimento tende naturalmente a captar a essência inteligível de qualquer objeto que os sentidos lhe apresentam;

2. Quando, como no caso das verdades reveladas, não é capaz por si só de captá-las, vem em sua ajuda a luz excessiva da fé e o capacita ou potencializa para consegui-lo;

3. A fé, segundo afirma constantemente o Doutor Místico, é o meio de união. A união do entendimento com o objeto postula, segundo a doutrina de São João da Cruz, que de algum modo se alcance a essência do objeto.

Nestes princípios se baseia a seguinte conclusão: na fé e pela fé, o entendimento alcança realmente a 'substância' das verdades reveladas, e, em conseqüência, se une à essência divina de algum modo.

A conclusão não se acha nesta forma em São João da Cruz, porém se deduz dos princípios que invoca expressamente. De outra maneira, se negássemos este sentido aos textos, não poderíamos seguir falando de fé como meio de união. E então, a fé não seria mais que a notícia de certos nomes comunicados pela revelação.

Por conseguinte, na fé e pela fé, o entendimento chega até a "substância apreendida" das verdades reveladas e se une à divina essência. Tudo isto pertence ao plano ontológico e se deduz das premissas mencionadas.

Se, ao contrário, considerarmos a fé em seu plano psicológico, notamos que o entendimento não consegue uma clara visão da essência divina. E por isso, neste plano, a fé não é "ciência", nem "notícia", nem "inteligência" - palavras que para São João da Cruz significam a plena captura do objeto -, mas "consentimento" às verdades reveladas propostas. Psicologicamente falando, isto é certíssimo.

Com isto damos por finalizada a exposição da primeira transcendência que a fé deve realizar para unir o entendimento com Deus. E, ao mesmo tempo, fica explicada a primeira tarefa da fé. Trata-se de uma transcendência ontológica e de uma tarefa ontológica, pelas quais a fé, em virtude da "semelhança essencial" que proporciona em relação a Deus, faz com que o entendimento, informado por esse hábito infuso, se proporcione e se una a Ele.

Resta ainda a segunda transcendência, isto é, a psicológica, postulada para que o entendimento possa alcançar, também no plano psicológico, a essência divina. Porém, antes de estabelecer as conclusões atinentes é preciso preparar o terreno com alguns esclarecimentos conceituais.

14. A união do entendimento com Deus se faz em fé, virtude sobrenatural segundo vimos. A esta união do entendimento com Deus em fé isolada, viva pela caridade, parece que se refere o Doutor Místico quando em Subida II 5,2 fala de "união total e permanente quanto ao hábito obscuro de união". E neste sentido chama à fé hábito certo e obscuro. Hábito, enquanto o entendimento possui em fé a essência divina e está unido a ela em fé. Obscuro, enquanto o entendimento carece da forma intencional da Divindade, à qual está unido em fé. Certo, enquanto adere de um modo permanente e sem titubeios.

Não obstante, o "consentimento" pertence já propriamente à questão que trata da falta de demonstração e de evidência na fé . Porém esta questão não é a que São João da Cruz trata de resolver, porque o que lhe interessa e no que insiste é na falta de objeto visto e não na falta de demonstração ou de evidência científica. Por isso, quando fala da fé, quase sempre alude a sua condição de 'hábito obscuro'.

15. Já explicamos que a fé, por sua própria índole, é meio proporcional para a união do entendimento com Deus. Vimos também que essa união carece da perfeição requerida. Não obstante isto, o Doutor Místico atribui à fé essa função psicológica, não como alcance pleno e definitivo, mas como algo preparatório e suscetível de gradual intensidade. Trata-se, pois, de uma perfeição relativa, segundo as possibilidades do homem viador. Deste modo, a doutrina do Doutor Místico resulta na afirmação da "inteligência obscura, confusa e geral, que ocorre em fé" (Subida II 10,4). Consequentemente, não se considera a fé somente como meio de união, mas também se examina o papel que ela desempenha no fenômeno total da união da alma com Deus, no qual intervêm as outras virtudes sobrenaturais juntamente com os dons do Espírito Santo. É muito importante investigar e precisar este aspecto para uma compreensão mais cabal de nosso tema: a natureza da fé.

16. Conhecemos já a operação natural do entendimento humano no estado de união alma-corpo. Quando a fé se infunde no entendimento e produz certa união com a essência divina, não se anula ou destroe o modo natural da operação intelectual, que segue seu canal ou processo normal, se bem que no caso da fé não chegue à visão clara: presta seu "consentimento", adere-se ao "não visto".

Neste estado de "assentimento", a fé permaneceria na atividade natural do entendimento com sua potencialidade sobrenatural e, ao mesmo tempo, com sua imperfeição psicológica, se não aderissem a ela outras forças que, juntamente com ela, cooperam para a união da alma com Deus. Com este reforço, a fé, persistindo em sua adesão essencial ao não visto, cresce e consegue uma relativa plenitude nesta vida. Tal plenitude, dado que a fé se enraíza em uma potência intelectiva, consiste em certa "inteligência" ou contemplação das realidades divinas.

17. Por isso convém dizer, uma vez mais, que a fé tem que ser, segundo São João da Cruz, meio próximo e proporcional do entendimento para que a alma possa chegar à divina união do amor (Subida II 9). A virtude estritamente unitiva, repete o Doutor Místico, é a caridade. O amor é que causa a semelhança essencial com a Divindade e que realiza e aumenta na ordem psicológica, fazendo amar o Amado. Porque, sendo a união sobrenatural uma união de semelhança, com tendência a transformar participativamente o sujeito amante no Amado, é evidente que a virtude que realiza a transformação é a caridade. E a realiza primeiro em sua própria sede, que é a vontade, estendendo-a depois às demais potências, nas quais injeta a semelhança psicológica do Amado.

O amor tanto produz semelhança quanto expulsa a dissemelhança. Em outras palavras: para introduzir intencionalmente o Amado, deve expelir ou arrojar do sujeito os inquilinos opostos. Tal é, para São João da Cruz, a natureza do amor, enquanto produz semelhança com o Amado no sentido psicológico; uma natureza capaz de uma semelhança cada vez mais perfeita e plena. Por isso repele as formas opostas.

Portanto, a exigência da 'noite' se apoia imediatamente no amor, base do sistema de São João da Cruz: duas formas contrárias, Deus e a criatura, não podem coexistir simultaneamente no mesmo sujeito. Contrariedade primeiramente ontológica: defeito de "semelhança essencial" (Subida II 8,3); contrariedade intencional, em segundo e conseqüente término. A caridade - amor divino que produz a semelhança divina na alma - tende com força nativa a expulsar as formas opostas, as formas das criaturas, sempre de índole e limites naturais. Trata-se de uma expulsão intencional, para que a vontade possa, sem adiamentos naturais, amar mais e mais a Deus, para possuir mais e mais sua forma intencional amável, e, por conseguinte, para que aumente mais e mais a união sobrenatural de semelhança e , em fim, a transformação participada.

18. Nesta perspectiva aparece mais claramente o influxo do amor na fé e no entendimento. A fé, animada pela caridade, é o meio próprio da união. A caridade tende à aquisição da semelhança com Deus primeiramente em sua sede ou potência - a vontade ; porém trabalha também, enquanto virtude unitiva da alma inteira com Deus, em produzir essa semelhança em outras partes e potências da alma. E o motivo é simples: porque a forma intencional divina é apresentada à vontade, informada já pela caridade, por parte do entendimento em fé; na fé, o entendimento alcança Deus, alcança a "substância apreendida" das verdades reveladas, e adere a elas em obscura adesão de assentimento. Esta união participada, segundo dissemos, introduz pleno valor ontológico, embora seja psicologicamente imperfeita por carecer de claridade e plenitude terminais.

A perfeição psicológica, que é relativa e não ultrapassa os limites do estado viador, vem à fé pela caridade. Para isto requer, antes de tudo, que a fé esteja formada ou animada pela caridade, e logo, que trabalhe em união com a caridade.

19. A caridade não produzirá a semelhança com o Amado se antes não expulsar as formas contrárias. E o que faz diretamente na vontade, faz também no entendimento no instante em que a fé atua animada pela caridade.

O elemento da semelhança essencial na fé - ou melhor, no entendimento em fé - é a "substância apreendida", anexa às verdades reveladas e escondidas nelas.

O elemento de dissemelhança no entendimento, relativamente a Deus, consiste nas formas intencionais naturais, adquiridas por abstração dos sentidos; formas distintas e particulares, embora intencionalmente claras e psicologicamente perfeitas e plenas. Porém São João da Cruz não se refere a qualquer forma, mas unicamente à relativa à recepção das verdades reveladas por parte do entendimento. E assim, sua atenção é centrada propriamente no caminho da união e na análise desse meio capital para adquiri-la, que é a oração interior ou mental.

Segundo a doutrina do Doutor Místico, no exercício da meditação ocorrem atos de conhecimento amoroso de Deus, e, portanto, atos que provêm radicalmente da fé, da esperança e da caridade; atos que ademais apresentam um perfil psicológico concreto.

Aí está o nó de nosso problema: a evolução psicológica da fé.

Para a observação dessa evolução, é ponto capital a oração interior, prescindindo da importância que no Carmelo teresiano se outorgou a seu exercício ordenado à união com Deus. Para nosso propósito, basta ver aí um ponto luminoso de observação.

20. O problema da fé que age pela caridade no sentido de conseguir a perfeita união psicológica da alma com Deus, quanto é possível nesta vida, apresenta, na obra do Doutor Místico, dois aspectos principais: a "passagem" da meditação para a contemplação (Subida II 13-15) e a "noite ativa do espírito" (Subida II 16-32).

Da fé trata mais explicitamente na "noite ativa do espírito", que atribui à fé, e freqüentemente a identifica com ela: é a noite da fé.

Em que consiste? A análise minuciosa e atenta desta noite nos mostrou que se trata sempre de uma abnegação do entendimento. O que eqüivale a exigir a expulsão das formas intencionais naturais, claras, particulares e distintas. E a afirmar a adesão do entendimento à essência divina, à qual se une na "substância" das verdades reveladas sem forma intencional clara, particular e distinta, porque Deus não pode se unir ao entendimento sob essa forma.

A fé se exercita, por conseguinte, na eliminação das formas intencionais particulares e distintas, originando a proporção de semelhança e a adesão do entendimento à forma ilimitada e geral, e, em conseqüência, naturalmente obscura.

Pois bem, a proporção do entendimento, trabalhada pela fé viva, já não é só ontologicamente unitiva, mas assume a índole de uma proporção psicológica, que dimana da conjunção metafísica própria da fé. Esta "junção" psicológica do entendimento com a forma intencional ilimitada e obscura constitui a matéria peculiar da "inteligência obscura, geral e amorosa", que o Doutor Místico chama 'contemplação'.

Porém, antes de iniciar o discurso sobre a contemplação, devemos fixar bem o dinamismo da fé na "noite ativa do espírito". Na noite, efetivamente, se descobre uma atividade muito característica da fé. Já não estamos insistindo só no aspecto metafísico da união do entendimento com Deus, mas na dinâmica específica da fé em seu aspecto psicológico: a virtude da fé age pela caridade, e pela caridade tende a alcançar a união psicológica do entendimento com Deus, seu objetivo, de forma intencional, ao mesmo tempo, ilimitada e obscura.

O que corresponde nesta operação à fé? O que à caridade?

Segundo as premissas assentadas anteriormente, ao amor corresponde a aquisição da semelhança do Amado e a expulsão das dissemelhanças. Esta ação típica do amor se estende logo ao entendimento ao animar a fé, e então produz aqui a semelhança do Amado na adesão às verdades reveladas; obscura, repetimos, e psicologicamente imperfeita por falta de forma intencional clara. Ao mesmo tempo, expulsa as dissemelhanças consistentes nas formas intencionais particulares e distintas, conaturais ao processo normal do conhecimento humano.

A adesão do entendimento ao revelado sem intelecção distinta e clara constitui o modo próprio do assentimento da fé. Ao contrário, a adesão do entendimento às verdades naturais, intencionalmente claras e distintas, lhe é conatural e produz satisfação e sossego psicológicos. Mas, precisamente por isto, carece naturalmente da requerida proporção em relação à "substância" das verdades reveladas.

De que proporção se trata? Em primeiro lugar, da metafísica evidentemente, porque a forma intencional clara e particular é algo essencialmente natural. Em segundo, da psicológica, porque esta inclui em si o ponto de partida (terminus a quo) e não o ponto de chegada (terminus ad quem) da proporção. A verdadeira proporção do entendimento ancorado na fé consiste na ausência da percepção clara do Objeto, ilimitado e imenso. Só a fé, não a natureza, origina a proporção do entendimento criado a Deus, e dela dimana a "inteligência obscura e geral".

Por conseguinte, o amor, ao produzir a semelhança com o Amado e estender sua ação à fé, assegura a adesão obscura e geral do entendimento e expulsa a dissemelhança causada pelo modo natural de conhecer. Na expulsão ocorre uma autêntica abnegação do entendimento, que naturalmente ama as formas intencionais claras e distintas. A maior renúncia corresponde maior vontade, porque o entendimento, como as outras potências, não pode admitir ou rechaçar nada sem a intervenção da vontade. A vontade, com efeito, enraíza o amor que deseja a semelhança com o Amado; logo, o amor pressiona o entendimento para que faça esta renúncia; a abnegação é, contudo, tarefa da fé. Em conclusão, a proporção do entendimento com Deus consiste essencialmente da fé. E não nos referimos somente à proporção ontológica causada pela fé ao unir o entendimento com Deus, mas também à proporção psicológica, enquanto a fé, por ser virtude intelectual, é seu meio de união a Deus, e busca, portanto, psicologicamente, a forma intencional da forma divina, sua semelhança psicológica no entendimento. A caridade intervém em sua ajuda e o entendimento em fé se deixa levar por ela; o amor é que, por sua própria índole, produz a semelhança no sentido psicológico; a fé, por seu lado, tem em si a semelhança do Amado enquanto "substância apreendida". Porém esta semelhança psicológica intelectual não alcança nunca, no estado de fé, a clara visão do Objeto. A fé versa sempre sobre o "não visto".

Esta é a contribuição que a caridade e a fé aportam para a união, estudada na análise da experiência da "noite ativa do espírito". E daqui derivam dados conclusivos que vamos examinar devagar.

21. Podemos dizer que a fé é meio de união do entendimento com Deus, mas não meio de transformação da alma em Deus. Não; só a fé, considerada aparte, mesmo animada pela caridade, mas não agindo impulsionada por ela, não pode ser dita meio de transformação.

Poderá sequer ser dita meio de união?

Resposta: São João da Cruz nada diz em seus escritos a respeito da fé informe. Refere-se sempre à fé animada ou informada pela caridade, à fé viva. E esta afirma que é meio de união do entendimento com Deus.

Não o será também a fé informe ou morta?

Abrir tal interrogação é sair da área sanjoanista. Cabe, não obstante, buscar em sua obra uma resposta indireta: seu discurso sobre a união supõe sempre a presença e o dinamismo da caridade; se a fé não estiver animada pela caridade, se for uma fé 'morta', não terá força para estabelecer 'semelhança' no entendimento, e, por conseguinte, tampouco terá força, segundo a lógica do pensamento sanjoanista, para a união psicológica. Já explicamos que sua força unitiva depende do amor, que se radica na vontade e estende seu raio de ação ao entendimento e às demais potências espirituais. Podemos, portanto, concluir: a fé 'morta' tem em si alguns elementos de união, porém não é propriamente meio de união.

22. O ser meio de união é atribuído à fé principalmente, por estabelecer uma proporção essencial na potência intelectiva em relação a Deus; pois bem, necessita que a caridade a imante para isto. Sem caridade a fé nem é virtude nem serve para nada. Então, ao transpor a 'proporção de semelhança' da ordem ontológica para a psicológica, impõe-se o recurso à imantação atuante da caridade, cada vez mais acesa, mais perfeita, exercitando os atos da abnegação intelectual e propiciando a inteligência obscura e amorosa. Porém então, já se vê, a fé não está isolada, mas sob o império e o influxo da caridade. A maior caridade, maior proporção do entendimento com Deus: cresce a fé e cresce sua condição de meio para a união.

23. Pela análise da 'noite obscura do espírito' pode-se facilmente deduzir que a sobrenaturalidade da fé é essencial, enquanto a sobrenaturalidade das 'apreensões particulares e distintas' é só modal. O essencial em uma apreensão é sua forma intencional, algo sempre conatural ao entendimento. Por isso é clara e distinta. Ao contrário, na fé, o entendimento se adere a um Objeto que o transborda, e o faz em virtude de uma luz que resulta também excessiva em relação à própria luz intelectual. A fé é essencialmente sobrenatural por sua adesão ao Objeto e pela luz que a possibilita.

24. A presença da fé na "noite ativa do espírito" esclarece muito bem sua contribuição decisiva para a "passagem" da meditação para a contemplação. A diferença entre uma e outra consiste em que, ao descrever a meditação, nos apresenta uma experiência da fé muito concreta, enquanto, ao tratar da contemplação, a experiência da fé se esfuma no processo íntimo de todo o organismo sobrenatural. Porém, se tivermos presentes os três "sinais" da "passagem", será fácil descobrir neles, do mesmo modo que na "noite ativa do espírito", que se está transcendendo o modo humano e que a adesão da fé às verdades reveladas já é muito fina. Em outras palavras: transcende-se a forma intencional particular e distinta e as potências se encontram no "vazio" natural, na "noite". A adesão anterior conservava ainda ressaibos sensitivos, isto é, do modo conatural da potência intelectiva, embora se tratasse de uma adesão causada pela fé. A nova adesão, esvaziada desses modos, corresponde melhor à índole específica da fé, e expressa também melhor a proporção de semelhança do entendimento à essência divina, à "substância" das verdades reveladas. Tem, por assim dizer, mais da fé; e não só no sentido ontológico, mas também no sentido psicológico.

Na "passagem" da meditação para a contemplação deve-se observar, não obstante, que já não é questão somente da atividade da fé unida à caridade, mas que o problema se projeta nas vertentes dos efeitos causados nas potências da um modo passivo: já não temos o entendimento trabalhando em fé sob o impulso da caridade para se libertar e se 'esvaziar' das formas intencionais naturais claras e distintas, mas o entendimento privado dessas formas pela ação ou moção do Espírito Santo, que trabalha a alma, posta em ação passiva na contemplação.

25. Na doutrina que São João da Cruz propõe acerca da contemplação podemos distinguir uma dupla ordem: a ordem da eficiência e a ordem objetiva. A primeira se refere às causas que a produzem; a segunda, ao que é em si.

Na ordem da causalidade eficiente a caridade desempenha papel primordial, com os dons do Espírito Santo conexos e iluminantes. Sobre o influxo dos dons é muito explícita a célebre passagem de Subida II 29,6. O primeiro móvel da contemplação é, sem dúvida, o impulso divino, o que já nos faz compreender por que na contemplação se transcende o modo humano. Do ponto de vista da causalidade eficiente, a fé aparece subordinada à caridade e aderida ao "não visto".

Na ordem da objetividade, ao contrário, a fé ocupa o primeiro plano, segundo São João da Cruz. E isto nos permite colocar em relevo sua íntima natureza. A moção iluminante do Espírito Santo, pela infusão de seus dons, dinamiza a caridade, e pela caridade que atua na fé, chega à adesão do entendimento à "substância" das verdades reveladas; pois bem, a adesão é ato próprio da fé. Na adesão da fé supõe-se a união do entendimento com Deus no sentido ontológico, e a abnegação do modo claro e distinto de conhecer no sentido psicológico; a abnegação é maior ou menor segundo os graus que o processo evolutivo da própria fé tenha alcançado. A moção do Espírito Santo, ao chegar pela caridade ao entendimento "recolhido" em fé (Subida II 29,6), encontra ali o resplendor da luz divina, a participação do divino conhecimento. A moção do Espírito Santo põe em relevo essa participação, porque, graças a seu influxo, a "luz excessiva" da fé se torna "luz da Sabedoria divina". Então - devemos concluir -, o entendimento não conhece por sua própria luz, mas pela luz do divino conhecimento participado. Porém - e vamos ver o perfil da fé acentuado - o grau da atual comunicação da luz divina e o grau da atual participação da 'Sabedoria' de Deus dependem da atual purificação do entendimento, aqui entendimento por 'pureza', a atual ausência de qualquer forma particular e distinta. Quanto mais plena e profunda for a desnudez, tanto mais pleno e perfeito será o influxo do Espírito Santo nessa participação da 'Sabedoria' divina. Ao contrário, quanto menor for a desnudez do entendimento, tanto menor será a eficácia da moção iluminante dos dons, como se submergisse e desvirtuasse nas formas intencionais naturais (Subida II 14,8).

Neste ângulo se descobre a função primordial da fé na contemplação; a desnudez atual do entendimento, a ausência de formas intencionais naturais, supõe um trabalho próprio da fé, supõe em tudo a presença ativa da fé. Ou seja, a união do entendimento com a "substância" das verdades reveladas; e isto não só no sentido metafísico, mas também no grau psicológico muito alto; supõe, em fim, que o entendimento já é exercido habitualmente mais na adesão sobrenatural obscura ao 'não visto' do que na intelecção clara e distinta dos objetos naturais.

A medida que a fé se aperfeiçoa no entendimento, se afasta mais e mais do natural e se enraíza no sobrenatural conhecido pela participação da luz da 'Sabedoria' divina. E deste modo se prepara o entendimento em fé, sob a moção do Espírito Santo, para experimentar e gozar a "notícia obscura, geral e amorosa" de Deus. Isto é, para a contemplação.

26. A contemplação se verifica na fé (Subida II 10,4). Ao ouvir isto, compreendemos o que é, segundo o Doutor Místico, a fé enquanto meio de união do entendimento com Deus. É, nem mais nem menos, a participação do conhecimento divino, a "luz excessiva" do entendimento participada habitualmente nessa virtude infusa. Neste sentido, pela fé e na fé se abre ao entendimento a possibilidade da união atual, que, sob o impulso dos dons do Espírito Santo, culmina na contemplação. Mais ainda: abre-se ao entendimento a porta para a visão do céu. O Doutor Místico ensina em Noite Escura II 5,1 que, sob a moção do Espírito Santo, a participação da 'Sabedoria' divina na fé pode, sem perder sua obscuridade típica, alcançar níveis iguais aos do céu. É então que começa a "noite passiva do espírito": a preparação imediata para a união transformadora.

27. Tal é o valor objetivo da contemplação, na qual grande parte corresponde à fé. Porém ainda não se esgotou a missão da fé. Dissemos que a fé é o 'meio' pelo qual se contempla. Mas o que se contempla? Vamos ver, respondendo à pergunta, a fé novamente em função.

O entendimento adere pela fé à "substância" das verdades reveladas. Porém esta "substância" não pode ser claramente penetrada. A obscuridade é condição essencial da fé. Não obstante, o entendimento se projeta naturalmente à obtenção clara do objeto. Com relação às verdades reveladas, o entendimento se exercita na 'meditação', sempre potencializado pela luz da fé, porém ao mesmo tempo sem sair dos limites da adesão obscura. Pode acontecer que alguma vez o entendimento abandone seu próprio esforço natural e se concentre todo, em 'obediência' à fé, na adesão às verdades reveladas, à forma intencional ilimitada e obscura, à "substância" do revelado. Porém isto já transcende o modo natural de conhecer. Tem uma causa sobrenatural, pois o entendimento na contemplação suspende, de certo modo, sua própria atividade natural. Está em perfeito "vazio", em perfeita desnudez psicológica. E neste estado é que se adere, sem a barreira da intelecção natural, à "substância" das verdades reveladas. Produz-se então o "toque" de Deus no entendimento passivo, a redundância e a fruição da "notícia amorosa", da "substância apreendida"; "substância", pela pureza psicológica da fé; "apreendida", não pela obtenção do objetivo divino, mas pela redundância da caridade. Em suma: entendida por amor.

E este é o ápice da união do entendimento com Deus, não só no sentido metafísico, mas também, no sentido psicológico.

28. De tudo que se disse anteriormente se deduz que o entendimento não se une atualmente a Deus a não ser pela fé contemplativa. Esta união é transeunte, já que a habitual é permanente na fé, segundo nos ensina o Doutor Místico em Subida II 5,2.

29. Sob este aspecto, aparece claramente em que sentido se pode chamar à fé, segundo a doutrina de São João da Cruz, raiz da contemplação. Não só a origina e põe em marcha, mas também permanece como base que a sustenta: quanto mais profunda e ampla é a base, tanto mais intensa e mais perfeita é a contemplação. Uma base, pois, que pode se aperfeiçoar progressivamente e se estender psicologicamente em virtude de sua índole constitutiva, isto é, em virtude do conhecimento divino participado e da adesão do entendimento à "substância" das verdades reveladas.