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Já sabemos, pelas análises textuais e pela síntese doutrinal, como
se estabelece o problema da fé nas obras de São João da Cruz.
Encontramos ali questões seletas, não um tratado sistemático,
total e formal.
As questões principais são duas: uma, a questão da fé sob seu
aspecto ontológico, de sua categoria sobrenatural, da qual deriva sua
força proporcional para unir o entendimento a Deus; outra, elaborada
em estreita dependência com os princípios fixados na primeira, a
questão da função purificadora da fé dentro do entendimento.
Estas são, na realidade, as duas questões maiores que o Doutor
Místico desenvolve, e que têm seu ponto central e sua expressão no
conceito de fé - quase uma definição - que propõe em Subida II
6.
A propósito destas duas questões especiais, comparando sua doutrina
com o que os teólogos ensinam sobre a natureza da virtude da fé, o
que nos diz? A profundidade com que o Doutor Místico desenvolve
esse par de questões nos permite colocar seu pensamento nessa
perspectiva e tirar algumas conclusões valiosas sobre a natureza da
fé.
Tendo em vista a análise, parece que a fé tem, para o Doutor
Místico, valor de virtude informante mais do que valor de virtude
dinâmica. Neste sentido se entende a afirmação de que é meio de
união do entendimento com Deus, pois o entendimento, em sua adesão
às verdades reveladas, assume delas, de certo modo, sua
"substância apreendida". E isto, embora seja sem alcançar
intencionalmente o objeto, apresenta caráter de informação. Se
não se informa do objeto divino, de que é informado ? Caberia dizer
que se enche de obscuridade? E então perguntaríamos: Que é essa
obscuridade da fé? Devemos concluir, pois, que o entendimento
adquire pela fé alguma proporção sem forma intencional clara, porque
é impossível, na condição presente, possuir clara visão de
Deus. O Doutor Místico dirá que conhecemos a Deus pela fé mais
não entendendo do que entendendo. É o modo próprio do conhecer em
fé. Por isso insinua a necessidade de renunciar a qualquer tipo de
intelecção clara e distinta que lhe venha tanto por via natural como
por via sobrenatural.
Tudo isto prova que a união do entendimento com Deus que se obtém
pela fé, embora não consiga psicologicamente a possessão do
Objeto, baseia-se em uma proporção psicológica do entendimento a
Deus. E esta proporção psicológica, embora não possa ser
considerada uma identificação intencional com a realidade divina, é
uma disposição preparatória: o entendimento adquire capacidade
psicológica para alcança-la.
Que esta proporção introduz valor de verdadeira informação
psicológica, deduz-se do princípio das duas formas invocadas por
São João da Cruz, que não podem coexistir ao mesmo tempo no mesmo
sujeito. Se a fé é capaz de impor ao entendimento a abnegação das
formas opostas, naturais e particulares; se produz no entendimento
"vazio e trevas", isto prova que em sua proporção a Deus há uma
forma psicológica, que não é objeto divino intencionalmente
possuído, mas uma forma que provém de sua íntima e obscura união
com Deus.
A "proporção intencional" é causada no entendimento pela luz
infusa; isto é, em virtude da participação do entendimento no
conhecimento divino, e, em conseqüência, de sua adesão à
"substância" das verdades reveladas. Trata-se, pois, de uma
proporção psicológica que seja capaz de uma determinada atividade
intelectual, segundo vimos ao falar da "passagem" da meditação para
a contemplação, e melhor ainda ao tratar da "noite ativa do
espírito". E essa proporção psicológica é o que propriamente
podemos chamar virtude da fé.
Porém, qual é a capacidade operativa ou dinâmica da fé? Para
responder à pergunta, talvez seja conveniente recordar a teoria dos
hábitos, tal como a ensina Santo Tomás na Suma Teológica
(I-II q.50): a perfeição que o hábito aporta à potência
não consiste em uma nova capacidade de ação acrescentada à
potência, mas em uma modificação e determinação perfectiva da
mesma. A capacidade dinâmica pertence, propriamente falando, à
potência que, modificada pelo hábito, se modifica e aperfeiçoa,
consequentemente, em sua operação. Esta teoria, embora São
João da Cruz não mencione expressamente, nos ajuda a compreender a
noção sanjoanista da fé.
A fé, como virtude sobrenatural do entendimento, realiza a união
desta potência com Deus e, ao mesmo tempo, a purifica. Produz nela
"vazio e trevas". Em que consiste sua energia dinâmica?
Depois de analisar atentamente Subida II 3, pode-se concluir que
a fonte de sua energia unitiva é a "luz excessiva", que consiste em
certa participação do conhecimento divino. E se perguntarmos pelo
grau e intensidade desta participação própria da fé, teremos que
responder que nas obras de São João da Cruz não se encontra
resposta expressa a esta questão. O que se diz sim é que a "luz
excessiva oprime e vence o entendimento" natural e que estende sua
ação ao "consentimento" ou assenso, ou seja, determina a firme
adesão às verdades reveladas, apesar de que lhe falte a possessão e
visão clara do Objeto. Em virtude, pois, da "luz excessiva",
realiza-se a união do entendimento com a "substância" do revelado,
união no sentido mais metafísico do que psicológico.
Isto é o que se depreende dos textos sanjoanistas.
Pois bem, pelo defeito da forma intencionalmente obtida, pela
obscuridade da fé, o entendimento que participa dessa "luz" não
abandona completamente sua operação natural, na qual se incluem ao
mesmo tempo a tendência negativa a compreender a essência da verdade
revelada - a fé cumula ontologicamente essa tendência, porém não
psicologicamente - e o modo natural da atividade intelectual. Este
modo é encontrado a cada página; quando trata da oração mental ou
da "noite ativa do espírito", a fé sempre atua da mesma maneira.
Mais ainda: esse modo natural de atividade constitui a matéria de sua
abnegação, de sua purificação e do "trânsito" à transcendência
psicológica, que já vimos.
A debilidade dinâmica da fé consiste precisamente em seu modo humano
de agir, que é o que põe travas e a liga. Aí está a causa da
desproporção a que nos referíamos nas análises anteriores.
Em fim, a força unitiva da fé provém da "luz excessiva", da
participação do conhecimento divino. Essa é, propriamente
falando, a energia dinâmica da fé como virtude unitiva.
Sem dúvida, a participação se limita ao "consentimento", isto
é, ao assenso às verdades reveladas. Com este limite realiza a
união do entendimento com a "substância" das verdades reveladas; e
por isso não é capaz da purificação psicológica total, da
abnegação plena e do "trânsito", que parecem conaturais da fé,
segundo o pensamento de São João da Cruz. Porém porque da
purificação psicológica do entendimento depende uma participação
mais perfeita da luz infusa graças à moção do Espírito Santo,
dela dependerá também a função da fé como meio de união. E assim
possibilita a atual união do entendimento com Deus, que se realiza
pela contemplação, e a "proporção" intencional ou de semelhança
alcança maior perfeição e profundidade, preparando o entendimento
para a obtenção da forma divina plena e clara.
Parece, pois, que neste ponto se põe um limite à fé quanto a sua
capacidade operativa, e, por conseguinte, quanto a sua capacidade
unitiva. E isto afeta não só o hábito da fé, mas seu ato no
sentido psicológico, experimental. Porém é precisamente aí,
nesse ponto, que a fé manifesta sua debilidade nativa e sua
desproporção, onde, segundo o Doutor Místico, a fé se abre às
demais virtudes que integram a dotação total sobrenatural do homem.
Parece inclusive que, se a fé quiser obter sua plenitude, sua total
perfeição possível, deverá abrir-se às outras virtudes,
necessariamente as solicitar.
Para ser perfeita, a fé tem que estar viva. Viva pela caridade e
pelos dons. Seu propósito específico é unir o entendimento com
Deus. Porém não o consegue senão em grau habitual e muito
concreto. Contudo, tende à plenitude própria da sua natureza. A
natureza da fé suporta a semelhança essencial de Deus no entendimento
de maneira habitual. É lógico que tenda a obter essa perfeição de
maneira atual. O próprio entendimento tende naturalmente à
compreensão da essência das verdades reveladas, tendência que tem um
valor estritamente psicológico.
Vemos, pois, que estas duas dimensões coincidem: a união atual se
projeta à união atual, e a união metafísica, à união
psicológica. Não obstante, a fé por si só não basta para
alcançar nem uma nem outra. Falha a sua capacidade dinâmica.
Necessita, portanto, abrir-se para as demais virtudes, que podem
ajuda-la a conseguir a união plena e perfeita, dentro das condições
ou limites da vida presente. A própria índole da fé exige estes
complementos, já que com sua ajuda se aperfeiçoa e dinamiza. É
próprio da fé participar da luz do divino conhecimento, e nessa luz
unir o entendimento à essência das verdades reveladas. Essa
perfeição alcança certa plenitude na contemplação sob a moção do
Espírito Santo.
Em definitivo, depois de considerar tudo o que antecede, podemos
concluir: a fé, mais do que como virtude que causa a união, deve
ser valorizada por sua íntima realidade ontológica, enquanto
participação divina; como potência infusa ordenada a unir a alma a
Deus e como fonte da contemplação.
Para isto não é suficiente somente a fé; é necessário que ela
receba a ajuda das demais virtudes sobrenaturais. Não basta para
explorar toda a participação de Deus que tem em si, como tampouco
basta para obter a união psicológica do entendimento com Deus, que
na vida presente se alcança pela contemplação. A fé vivificada
pela caridade o alcança, sem dúvida, impulsionada e iluminada pelos
dons do Espírito Santo, especialmente pelos do entendimento e
sabedoria..
Assim, o pensamento místico de São João da Cruz parece em
conformidade com o pensamento teológico da Santo Tomás de Aquino.
O Doutor Místico propugna a essencial sobrenaturalidade da fé
infusa (Suma Teológica II-II q.1 a.1; q.2 a.3; q.6
a.1-2) e trata amplamente da perfeição que a fé recebe da
caridade e dos dons do Espírito Santo.
Dessa harmonia de pensamento tratarei em separado, no anexo seguinte.
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