2. CONCLUSÃO: NATUREZA DA FÉ.

Já sabemos, pelas análises textuais e pela síntese doutrinal, como se estabelece o problema da fé nas obras de São João da Cruz. Encontramos ali questões seletas, não um tratado sistemático, total e formal.

As questões principais são duas: uma, a questão da fé sob seu aspecto ontológico, de sua categoria sobrenatural, da qual deriva sua força proporcional para unir o entendimento a Deus; outra, elaborada em estreita dependência com os princípios fixados na primeira, a questão da função purificadora da fé dentro do entendimento.

Estas são, na realidade, as duas questões maiores que o Doutor Místico desenvolve, e que têm seu ponto central e sua expressão no conceito de fé - quase uma definição - que propõe em Subida II 6.

A propósito destas duas questões especiais, comparando sua doutrina com o que os teólogos ensinam sobre a natureza da virtude da fé, o que nos diz? A profundidade com que o Doutor Místico desenvolve esse par de questões nos permite colocar seu pensamento nessa perspectiva e tirar algumas conclusões valiosas sobre a natureza da fé.

Tendo em vista a análise, parece que a fé tem, para o Doutor Místico, valor de virtude informante mais do que valor de virtude dinâmica. Neste sentido se entende a afirmação de que é meio de união do entendimento com Deus, pois o entendimento, em sua adesão às verdades reveladas, assume delas, de certo modo, sua "substância apreendida". E isto, embora seja sem alcançar intencionalmente o objeto, apresenta caráter de informação. Se não se informa do objeto divino, de que é informado ? Caberia dizer que se enche de obscuridade? E então perguntaríamos: Que é essa obscuridade da fé? Devemos concluir, pois, que o entendimento adquire pela fé alguma proporção sem forma intencional clara, porque é impossível, na condição presente, possuir clara visão de Deus. O Doutor Místico dirá que conhecemos a Deus pela fé mais não entendendo do que entendendo. É o modo próprio do conhecer em fé. Por isso insinua a necessidade de renunciar a qualquer tipo de intelecção clara e distinta que lhe venha tanto por via natural como por via sobrenatural.

Tudo isto prova que a união do entendimento com Deus que se obtém pela fé, embora não consiga psicologicamente a possessão do Objeto, baseia-se em uma proporção psicológica do entendimento a Deus. E esta proporção psicológica, embora não possa ser considerada uma identificação intencional com a realidade divina, é uma disposição preparatória: o entendimento adquire capacidade psicológica para alcança-la.

Que esta proporção introduz valor de verdadeira informação psicológica, deduz-se do princípio das duas formas invocadas por São João da Cruz, que não podem coexistir ao mesmo tempo no mesmo sujeito. Se a fé é capaz de impor ao entendimento a abnegação das formas opostas, naturais e particulares; se produz no entendimento "vazio e trevas", isto prova que em sua proporção a Deus há uma forma psicológica, que não é objeto divino intencionalmente possuído, mas uma forma que provém de sua íntima e obscura união com Deus.

A "proporção intencional" é causada no entendimento pela luz infusa; isto é, em virtude da participação do entendimento no conhecimento divino, e, em conseqüência, de sua adesão à "substância" das verdades reveladas. Trata-se, pois, de uma proporção psicológica que seja capaz de uma determinada atividade intelectual, segundo vimos ao falar da "passagem" da meditação para a contemplação, e melhor ainda ao tratar da "noite ativa do espírito". E essa proporção psicológica é o que propriamente podemos chamar virtude da fé.

Porém, qual é a capacidade operativa ou dinâmica da fé? Para responder à pergunta, talvez seja conveniente recordar a teoria dos hábitos, tal como a ensina Santo Tomás na Suma Teológica (I-II q.50): a perfeição que o hábito aporta à potência não consiste em uma nova capacidade de ação acrescentada à potência, mas em uma modificação e determinação perfectiva da mesma. A capacidade dinâmica pertence, propriamente falando, à potência que, modificada pelo hábito, se modifica e aperfeiçoa, consequentemente, em sua operação. Esta teoria, embora São João da Cruz não mencione expressamente, nos ajuda a compreender a noção sanjoanista da fé.

A fé, como virtude sobrenatural do entendimento, realiza a união desta potência com Deus e, ao mesmo tempo, a purifica. Produz nela "vazio e trevas". Em que consiste sua energia dinâmica?

Depois de analisar atentamente Subida II 3, pode-se concluir que a fonte de sua energia unitiva é a "luz excessiva", que consiste em certa participação do conhecimento divino. E se perguntarmos pelo grau e intensidade desta participação própria da fé, teremos que responder que nas obras de São João da Cruz não se encontra resposta expressa a esta questão. O que se diz sim é que a "luz excessiva oprime e vence o entendimento" natural e que estende sua ação ao "consentimento" ou assenso, ou seja, determina a firme adesão às verdades reveladas, apesar de que lhe falte a possessão e visão clara do Objeto. Em virtude, pois, da "luz excessiva", realiza-se a união do entendimento com a "substância" do revelado, união no sentido mais metafísico do que psicológico.

Isto é o que se depreende dos textos sanjoanistas.

Pois bem, pelo defeito da forma intencionalmente obtida, pela obscuridade da fé, o entendimento que participa dessa "luz" não abandona completamente sua operação natural, na qual se incluem ao mesmo tempo a tendência negativa a compreender a essência da verdade revelada - a fé cumula ontologicamente essa tendência, porém não psicologicamente - e o modo natural da atividade intelectual. Este modo é encontrado a cada página; quando trata da oração mental ou da "noite ativa do espírito", a fé sempre atua da mesma maneira. Mais ainda: esse modo natural de atividade constitui a matéria de sua abnegação, de sua purificação e do "trânsito" à transcendência psicológica, que já vimos.

A debilidade dinâmica da fé consiste precisamente em seu modo humano de agir, que é o que põe travas e a liga. Aí está a causa da desproporção a que nos referíamos nas análises anteriores.

Em fim, a força unitiva da fé provém da "luz excessiva", da participação do conhecimento divino. Essa é, propriamente falando, a energia dinâmica da fé como virtude unitiva.

Sem dúvida, a participação se limita ao "consentimento", isto é, ao assenso às verdades reveladas. Com este limite realiza a união do entendimento com a "substância" das verdades reveladas; e por isso não é capaz da purificação psicológica total, da abnegação plena e do "trânsito", que parecem conaturais da fé, segundo o pensamento de São João da Cruz. Porém porque da purificação psicológica do entendimento depende uma participação mais perfeita da luz infusa graças à moção do Espírito Santo, dela dependerá também a função da fé como meio de união. E assim possibilita a atual união do entendimento com Deus, que se realiza pela contemplação, e a "proporção" intencional ou de semelhança alcança maior perfeição e profundidade, preparando o entendimento para a obtenção da forma divina plena e clara.

Parece, pois, que neste ponto se põe um limite à fé quanto a sua capacidade operativa, e, por conseguinte, quanto a sua capacidade unitiva. E isto afeta não só o hábito da fé, mas seu ato no sentido psicológico, experimental. Porém é precisamente aí, nesse ponto, que a fé manifesta sua debilidade nativa e sua desproporção, onde, segundo o Doutor Místico, a fé se abre às demais virtudes que integram a dotação total sobrenatural do homem. Parece inclusive que, se a fé quiser obter sua plenitude, sua total perfeição possível, deverá abrir-se às outras virtudes, necessariamente as solicitar.

Para ser perfeita, a fé tem que estar viva. Viva pela caridade e pelos dons. Seu propósito específico é unir o entendimento com Deus. Porém não o consegue senão em grau habitual e muito concreto. Contudo, tende à plenitude própria da sua natureza. A natureza da fé suporta a semelhança essencial de Deus no entendimento de maneira habitual. É lógico que tenda a obter essa perfeição de maneira atual. O próprio entendimento tende naturalmente à compreensão da essência das verdades reveladas, tendência que tem um valor estritamente psicológico.

Vemos, pois, que estas duas dimensões coincidem: a união atual se projeta à união atual, e a união metafísica, à união psicológica. Não obstante, a fé por si só não basta para alcançar nem uma nem outra. Falha a sua capacidade dinâmica. Necessita, portanto, abrir-se para as demais virtudes, que podem ajuda-la a conseguir a união plena e perfeita, dentro das condições ou limites da vida presente. A própria índole da fé exige estes complementos, já que com sua ajuda se aperfeiçoa e dinamiza. É próprio da fé participar da luz do divino conhecimento, e nessa luz unir o entendimento à essência das verdades reveladas. Essa perfeição alcança certa plenitude na contemplação sob a moção do Espírito Santo.

Em definitivo, depois de considerar tudo o que antecede, podemos concluir: a fé, mais do que como virtude que causa a união, deve ser valorizada por sua íntima realidade ontológica, enquanto participação divina; como potência infusa ordenada a unir a alma a Deus e como fonte da contemplação.

Para isto não é suficiente somente a fé; é necessário que ela receba a ajuda das demais virtudes sobrenaturais. Não basta para explorar toda a participação de Deus que tem em si, como tampouco basta para obter a união psicológica do entendimento com Deus, que na vida presente se alcança pela contemplação. A fé vivificada pela caridade o alcança, sem dúvida, impulsionada e iluminada pelos dons do Espírito Santo, especialmente pelos do entendimento e sabedoria..

Assim, o pensamento místico de São João da Cruz parece em conformidade com o pensamento teológico da Santo Tomás de Aquino. O Doutor Místico propugna a essencial sobrenaturalidade da fé infusa (Suma Teológica II-II q.1 a.1; q.2 a.3; q.6 a.1-2) e trata amplamente da perfeição que a fé recebe da caridade e dos dons do Espírito Santo.

Dessa harmonia de pensamento tratarei em separado, no anexo seguinte.