3. VIRTUDE PURIFICADORA.

Também sobre o segundo problema da fé segundo São João da Cruz - a função purificadora que lhe atribui, por exemplo, em Subida II 8, e mais particularmente ao descrever a "noite ativa do espírito" - pode-se encontrar passagens paralelas em Santo Tomás. Por exemplo, em Suma Teológica (II-II q.7 a.2) pergunta: "A purificação do coração é efeito da fé?"

Responde:

"A criatura racional é superior às criaturas caducas e corpóreas. E por isso torna-se impura quando se submete a elas por amor. De tal impureza se limpa quando tende a Deus. Esta tendência arranca da fé, da qual se diz: É necessário que quem quer se aproximar de Deus, creia primeiro que existe (Heb 11,6). Portanto, o primeiro princípio da purificação do coração está na fé, e, se esta já tiver sido aperfeiçoada pela caridade, a purificação que causa será plena".

Na resposta à segunda objeção afirma:

"A fé, ainda informe, exclui certa impureza a ela oposta, que é a impureza do erro, que tem lugar quando o entendimento humano se adere desordenadamente a objetos inferiores; isto é, quando pretende julgar as coisas divinas segundo o modo dos seres sensíveis".

As últimas palavras nos surpreendem com uma cabal convergência do pensamento de ambos os doutores. A função da purificação, atribuída pelo Doutor Angélico à fé, consiste em limpar o entendimento do erro mediante a adesão à verdade. O mesmo ensina na questão disputada Sobre a verdade (q.28 a.1,6.ª ).

Porém, tratando-se da purificação que o Doutor Místico atribui à fé viva, que age pela caridade, achamos no Doutor Angélico uma passagem de conteúdo análogo ao falar da função do dom do entendimento. Leia-se Suma Teológica II-II q.8 a.7:

"Há, de fato, dois tipos de pureza. Uma preliminar e dispositiva para a visão de Deus, que é a depuração de todos os efeitos desordenados que caem na vontade, e esta pureza do coração se alcança pelas virtudes e dons próprios da potência apetitiva. Outra que é completiva para a visão de Deus: tal é a pureza da mente que foi depurada dos fantasmas e dos erros para que não receba as coisas reveladas por Deus na forma de imagens corporais e segundo perversões heréticas. Esta é pureza que produz o dom do entendimento.

Igualmente, acontece também uma dupla visão de Deus. Uma perfeita, pela qual se vê a essência divina. Outra imperfeita, pela qual, se não se chega a ver bem sua essência, ve-se Dele o que não é, e tanto mais perfeitamente conhecemos a Deus nesta vida quanto melhor entendemos que ultrapassa tudo o que o entendimento compreende.

Ambos os modos de visão pertencem ao dom do entendimento. O primeiro, ao dom do entendimento consumado, como se dará na Pátria. O segundo, ao dom do entendimento começado, como se dá no estado de caminho".

Em resumo, podemos dizer que toda a doutrina de São João da Cruz sobre a tarefa purgadora da fé, sobre a preparação do entendimento para a visão e sobre a experiência da não compreensibilidade de Deus já se encontra em germe nas obras de Santo Tomás de Aquino.